About joananavega

'Existe é homem humano. Travessia.' ∞

santorini & mykonos

Santorini

– Fira – centrinho da ilha, ruelas, lojinhas, cafés, vista linda das montanhas com casas construídas num modo único e os transatlânticos no mar egeu.

– Oia – ao norte da ilha, um pouco longe do centrinho, mas vale demais, um pôr-do-sol mágico, casinhas que nem de joão de barro branquinhas com flores, restaurantes deliciosos com vista magistral.

– Red Beach – formação acho que vulcânica deixou as pedras vermelhas, bem diferente de tudo que já havia visto, pedras em lugar de areia, vale ir com aqueles sapatinhos que protegem o pé de andar em cachoeira e fazer rapel.

– White Beach – me remeteu ao que acho que é a Tailândia e Fernando de Noronha com pedras em formato interessante dentro do mar, tipo o local que a Malévola at its best com suas asas voa no filme, pra chegar tem que pegar um barco em Red Beach.

– Perissa Beach – areias de pedra e escura, espreguiçadeiras, bom pra sentir a ilha.

Mykonos

 – Centrinho – cheinho de ruelas, sorveterias, cafés, lojinhas de sabonete e souvernirs, gracioso demais.

– Little Venice – local ideal prum pós praia, pra ver o pôr-do-sol tomando uma sangria e comendo uma greek salad.

– Paraga Beach – praia cristalina e pequetita, bem intimista, com espreguiçadeiras e drinques, a mais linda na minha opinião. Tem uma pedra um pouco afastada de onde as micro ondas quebram que é uma delícia ir nadando e explorar, além do visual.

– Super Paradise – praia também transparente e estonteante.

– Kalua Beach – praia mais badalada, com barcos atracados e um cais, espreguiçadeiras, água inacreditavelmente transparente também.

– Ornos – praia mais turística, água pra variar cristalina (viva o mar egeu), com restaurantes maiores e espreguiçadeiras nela todinha. Como quase toda praia, o cantinho é uma delícia e o mar fica bem tranquilinho e raso.

 

Euro Trip 249

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Hello from Morocco.

“Sonhei contigo noite passada. Está tudo bem? Hope so.

O curso em Lisboa foi um barato, nos sentidos pessoal e profissional. Nenhum dos cerca de 35 alunos tinha inglês como língua materna. Havia pessoas da Grécia, Suécia, Áustria, Bósnia, Hungria, República Tcheca, Espanha, França, Itália e até Ucrânia (enchi a menina de pergunta sobre a guerra atual que assola o país dela). As meninas que mais me identifiquei e conversei são da Bélgica, Macedônia (amei, só conhecia Alexandre, o Grande) e da Polônia. Eu era uma das mais velhas do grupo (a maioria era composta de estudantes) e fui a guia e tradutora do grupo nos momentos que os organizadores da ELSA não estavam. Haha. Adoravam o fato de eu falar português, no entanto, nem sempre eu conseguia me comunicar com os portugueses com facilidade (eles falam pra dentro, rápido e comem as vogais).

As aulas foram todas em inglês, praticamente todos professores eram portugueses, mas com experiência nos EUA (uma das professoras leciona em Harvard), salvo um – top 3 pra mim, que era holandês (conversamos bastante sobre a Copa) e super expert em direito autoral. O nome dele é P. Bernt e ele levou para discussão casos bem interessantes de copyright que foram para a apreciação da Corte da União Europeia recentemente, inclusive alguns envolvendo partidas de futebol.

Falou-se bastante sobre os desafios da propriedade intelectual nesse mundo digital e em constante transformação (muita coisa básica, mas novidades too), foco em copyright, mas trademark e patentes too, sob a ótica das diretivas da UE e legislação local comparada/harmonização. (…)

Estou apaixonada por Portugal. Lisboa é ainda mais encantadora que em “Trem noturno para Lisboa”. Fui à casa do Fernando Pessoa (a última que ele morou), você já foi? O quarto dele do jeitinho que era e os livros dele com as anotações a lápis feitas por ele mesmo (ele anotava em inglês too, vários “excellent” eu consegui ler de trechos com highlights). Há uma seleção de poesias proferidas por personalidades brasileiras arrepiante. Chorei duas vezes. Hihi. By the way, no monastério dos Jerônimos (onde o corpo dele está enterrado), adivinha trecho de qual poesia está cravado na lápide… Veja na foto anexa. Lembrei de você. 🙂

Consegui ir também à Sintra, uma cidadezinha medieval ao norte de Lisboa que é coisa mais linda (parece um conto de fadas, com castelo, palácio, flores, árvores e casinhas de telhado em forma de cone com lareira) e ao Algarve (cidades chamadas Lagos, Lagoa e Albufeira), uma região ao sul que é incrível: águas transparentes (mas gelaaaaadas), cavernas e as pessoas especiais que encontramos no caminho.

Já fui também à Sevilha na Espanha (apaixonei too, você já foi?). Capital da Andaluzia, foi a maior cidade da Europa na época das grandes navegações, recebia todas as especiarias advindas das Índias e Américas.

Desde o final de julho estou no Marrocos, dormi ontem num acampamento no Saara (céu cheiiiiiinho de estrela e a luz da lua tão forte que nem precisava mesmo de luz elétrica). Choque cultural isso aqui em todos os sentidos: comida, religião, idioma, roupas, arquitetura (bem parecida com Sevilha que foi ocupada durante muito tempo por árabes há tempos, but still…), tudo. Já estive em Asilah (Búzios dos marroquinos, pôr-do-sol lindo), Chefchaouen (cidade que começou a ser formar no paleolítico – ! – toda pintadinha de azul – as casas com azul mais claro, dos mouros e mais escuro, dos judeus – ambos vieram fugindo das perseguições cristãs) e Fez (a primeira capital do Marrocos, hoje capital espiritual e onde fica a primeira instituição de ensino da História – hoje uma Universidade, parece que foi fundada nos anos 800 d.C.). Fui lá, mas infelizmente não é aberta a visitações, nem sequer a biblioteca, consegui ver apenas a bela mesquita (tem em todos os lugares, eles rezam 5 vezes por dia). Nesse sentido, é que nem Istambul, os microfones das mesquitas chamam os fieis para as orações e os sons ecoam na medina inteira. Umas 3 pessoas daqui falaram da novela O Clone, bacana, né? Disseram ter gostado inclusive. Fico maravilhada com isso, não há fronteiras pra determinadas coisas. Por outro lado, pobreza e alguns costumes lamentáveis do meu ponto de vista. O nosso guia em Fez nos contou que as burcas e mil roupas que as mulheres são acostumadas a usar fora de casa e o fato de as mulheres não poderem rezar no mesmo local que os homens nas mesquitas é para que o lado “diabólico” dos homens não seja tentado (eles parecem acreditar mesmo em céu e inferno e que Jesus não morreu). Discuti com ele, disse que a meu ver o efeito é inverso e que as pessoas devem buscar controlar as emocões e instintos independentemente do ambiente. Tentei dizer com o maior respeito possível. Díficil demais, né? Ele acha que o que está ocorrendo na Palestina é genocídio e está estranhando o fato de a comunidade árabe estar aparentemente passiva (segundo ele, eles se veem como uma nação só, irmãos, independentemente do Estado – criação humana – em que se encontram). Não tenho acompanhado muito bem daqui e sei que a questão é antiga e muito mais complicada do que parece, muitos interesses em jogo, para muito além das religiões. Segundo ele, as coisas que o noticiário ocidental diz sobre os muçulmanos e o islamismo são bastante equivocadas e enviesadas… Quem sabe…

É isso. Tentei ser breve, mas é uma profusão de sentimentos e pensamentos danada. Selecionei os que acho que você gostará mais de saber.

Shukran (obrigada em árabe – a grafia é linda). 🙂

Um beijo bem grande,
Jô”

Adaptação de e-mail escrito e enviado em 08.08.2014

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Lisboa, boa.

Estação de metrô Saldanha: cheinha de trechos de poesias e livros nas paredes. Adorável. De lá: “As pessoas que mais admiro são aquelas que nunca se acabam.” Só pecaram em não indicar o autor ao pé da citação.

Trem nº 28: A parada inicial é na praça da estação Martins Moniz. A rota do trem por si só é uma atração e percorre todo o centro antigo e as ruelas encantadoras de Lisboa. Uma delícia de passeio, já dá pra notar a arquitetura típica do centro antigo de Lisboa: azulejos (herança árabe), varandinhas, janelões, lustres adornados, praças, igrejas e, claro, as calçadas cheinhas de pedras portuguesas (tropecei numa de salto e caí que até sangrou o joelho).

Café À Brazileira: Parece que já foi café o preferido do Fernando Pessoa (tem até uma estátua dele tomando um cafezinho lá, tipo a do Drummond que tem na Praia de Copacabana), tem uma placa em mármore indicando o dia que Juscelino Kubitschek lá esteve em 1960 e teria escrito: “Parto com o coração doendo.”  Gostei da logomarca, mas tive um pouco de medo. Estive lá mais de 5 vezes e todas elas muito cheio de turistas. O ideal é tomar um café rápido no balcão mesmo com um pastelzinho de nata. Só na 4ª vez o atendente me deu bola. Devia ser bom mesmo no início do século passado quando Pessoa ia lá (parece que deixou de ir porque ficou famosinho) e mais ou menos até 1960. Vale pelas redondezas, cheia de restaurantes, cafés, livrarias, padarias e ruazinhas sobe e desce.

Praça Luís de Camões: bem gostosinha, é onde fica o Consulado Geral do Brasil, padarias e lojinhas bacanas.

Livraria Bertrand: a livraria mais antiga do mundo, dentro tem certificado do Guiness Book, ela abriu em 1732. Se você compra um livro, eles perguntam se você quer que carimbe com o certificado do Guiness, como uma lembrança. Eu quis no Mensagem do Pessoa que comprei. J

Largo do Carmo: local onde a ditatura de Salazar foi derrubada e onde fica o restaurante que comi o bacalhau mais delicioso por lá (Carmo o nome do restaurante, fica praticamente numa esquina de frente para o Largo, com cadeirinha na calçada – sugiro sentar nas cadeiras da calçada pra sentir a vibe gostosa do Largo). O bacalhau é À Braz (realmente delicioso). Dá pra provar também o licor tradicional português: a famosa Ginjinha. Bem gelada. Achei uma delícia.

Elevador Santa Justa: Dá pra ver a cidade bem do alto, mas se tiver muita fila – quase sempre tem – sugiro descer pra cidade baixa direto (o Castelo de São Jorge tem uma vista ainda mais bacana e 360º).

Rua Augusta (rua mais linda do mundo, segundo o protagonista do livro “Trem Noturno pra Lisboa”): De fato é estonteante. Eu cheguei super de surpresa andando pelas redondezas e fiquei pasma e em estado de choque quando me vi lá, um sentimento maravilhoso. É cheia de restaurantes e, ao final, há um arco branco gigantesco que dá pra Praça do Comércio. Linda mesmo.

Praça do Comércio: é a Praça XV só que maior, mais limpa e bem cuidada. Gostoso sentar em um dos restaurantes ao redor dela e curtir a atmosfera. Venta gostoso, porque dá pro Tejo.

Café Martinho da Arcada: fica praticamente na Praça do Comércio, numa esquina (tem a mesa que Fernando Pessoa sentava até hoje lá e uma das poesias que ele teria escrito pra pagar uma conta –, linda por sinal): o dono é um doce, o vinho do porto uma delícia, pastel de nata igualmente e um expressozinho, hmmmmmmmm!

Praça Marquês de Pombal: é o ponto de início do ônibus turístico hop-on hop-off – super recomendo, passa em praticamente todos os lugares, inclusive no Parque das Nações e em Belém, você pode subir e descer, há 2 linhas, eles fornecem um mapinha e tem áudio em várias línguas com a História dos lugares (superficial, mas é). Fica de frente pra Avenida da Liberdade (que é toda arborizada, bem bonita) e de costas para um lindo parque que sobe (lá em cima vê-se uma belíssima vista da cidade, é especialmente bonita – porque mais alto – vista do segundo andar do hop-on hop-off. Ao centro há uma estátua gigantesca do Marquês de Pombal (O cara, a meu ver, pena que Maria A Louca o dispensou… ele que revigorou Lisboa depois do terremoto e tsunami de 1755 que devastou 1/3 da cidade. Dizem que foi o maior estadista do Império Português.

Walking Tour: sugiro fortemente fazer um pela Praça Dom Pedro IV (I do Brasil), cercanias do castelo de São Jorge, Mouraria, Alfama, Catedral da Sé e Igreja Santa Luzia com uma vista fantástica do Tejo, além do local onde Saramago está enterrado. São locais muito graciosos e cheiiinhos de História. O que fiz é diário, se chama John Doe Tours e sai do Hostel Tram que fica bem pertinho do Elevador Santa Justa.

Casa de Fernando Pessoa: pra mim valeu demais a ida. Foi até meio mágico. Tem um restaurante delicioso atrás da casa, livros dele com observações feitas manualmente, por ele! No último andar um filme com personalidades brasileiras e portuguesas declamando poesias dele. Até chorei. Lindo demais.

Belém:

Monastério dos Jerônimos: obra de arte da arquitetura, todos os detalhes. Onde Fernando Pessoa está enterrado, na lápide trecho de uma das poesias que mais gosto dele:

‘Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.’

Pastelaria de Belém: receitas das freiras das antigas. Pastelzinho feito na hora, massa que derrete na boca, quentinha. Perfect. Atendimento bom e vinho do porto delícia também.

Monumento ao Descobrimento: bacana, mas o mais legal é o mapa mundi no chão com as datas e locais que os portugueses ‘descobriam’ e colonizaram à época das grandes navegações. Um barato.

Monumento aos mortos nas guerras de independências das colônias portuguesas africanas durante a ditadura de Salazar: além de bonito e moderno, dá pra se dar conta do quão as guerras são lamentáveis. Os nomes de todos os mortos estão escritos na parede. É muita gente. É muita dor. É muito lamentável. Chega doi.

Torre de Belém: não dava nada, mas adorei entrar. Os detalhes das paredes e janelas são impressionantes e tem uma bela vista da cidade e do Tejo também.

Curiosidades: Lisboa tem uma ponte igual à Golden Gate (parece que o arquiteto foi o mesmo inclusive), outra igual à RJ/Niterói (só que cerca de 4km mais longa) e uma estátua de Jesus Cristo. Sério. Menor. Mas é ele.

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reading challenge #7: no que acredito – bertrand russell

7. NO QUE ACREDITOBERTRAND RUSSELL (originalmente publicado em 1925)

Categorias: “a book a friend recommended” e “a book that made you cry”.

Resumo: Bertrand Russel resume em poucas páginas, de forma relativamente simples, suas crenças mais profundas e densas. Fiquei profundamente tocada e emocionada, na medida em que muitas delas refletem as minhas próprias crenças a partir da minha experiência so far (mas que eu não havia concatenado tão bem e de forma tão ampla até me deparar com esse livro) e posso dizer que passei a ser uma defensora das ideias dele. Deu vontade de sair gritando por aí as palavras escritas por ele nesse livro.

Trechos da apresentação escrita por Alan Ryan que merecem destaque:

“A visão de Russell sobre o comportamento humano era enraizada na tradição empírica que propunha que o desejo é o motor de todas as ações e que o papel da razão é nos dizer como buscar aquilo que buscamos, e não aquilo que, de início, deveríamos perseguir. (…) ‘A razão é e deveria ser escrava das paixões’.”

“Russell acreditava que deveríamos pensar muito detidamente sobre aquilo a que nos propomos, e ele queria mais reflexão, e uma reflexão mais cientificamente orientada, sobre o que deveríamos fazer com nossas vidas. Tratava-se de uma discussão para tentar entender o que de fato queremos.”

“Rivers achava que Freud exagerava os próprios insights, mas não tinha dúvidas de que estamos muito mais à mercê de impulsos inconscientes do que gostamos de acreditar.”

“Paz e felicidade só podem ser asseguradas por meio do estímulo dos instintos criativos e do desvio dos instintos possessivos para fins úteis ou, pelo menos, inofensivos.”

“Nossos impulsos em si não são nem bons nem maus; são fatos brutos. São bons e maus conforme auxiliam ou desfrutam outros impulsos, nossos ou de outras pessoas.”

“Russell defendeu altos ideais que apenas frouxamente estão ligados à busca da felicidade no sentido comum – coragem, por exemplo, o amor à verdade e uma preocupação não-instrumentalista pela natureza.”

“Russell se dizia um agnóstico, indicando que não era impossível que houvesse algum tipo de deus, mas que ele tinha certeza que Deus não existia.”

“Russell era hostil a toda forma de ética que fosse baseada em regras. Acertadamente ele pensava que a moralidade desempenha um papel pequeno na existência. Ninguém observa as regras sobre dever paterno quando cuida de uma criança doente, por exemplo; a pessoa é motivada – ou não – por amor, e em nenhum dos casos a moralidade desempenha qualquer papel. Se às pessoas falta afeição necessária para uma situação, não é possível forçá-las a tê-la por meio de lições de moral, e, se sentem tal afeição, a baliza da moral é redundante.”

“Russell sempre achou o vasto vazio do universo profundamente comovente – aterrorizante e consolador também. Essa emoção fez com que muitos leitores decidissem que Russell era, apesar de tudo, um pensador excepcionalmente religioso.”

Trechos do livro em si que merecem destaque:

“Exceto na astronomia, a humanidade não conquistou a arte de predizer o futuro; nas relações humanas, podemos constatar a existência de forças que conduzem à felicidade e de outras que conduzem ao infortúnio. Não sabemos qual delas prevalecerá, mas, para a agir com sabedoria, devemos estar cientes de ambas.”

“O homem é parte da natureza, não algo que se contraste com ela.”

“Deus e a imortalidade, dogmas centrais da religião cristã, não encontram respaldo na ciência. (…) Sem dúvidas, as pessoas continuarão a alimentar essas crenças, visto que lhe são aprazíveis, como aprazível é atribuir-nos a virtude e aos nossos inimigos o vício. (…) Não pretendo provar que Deus não existe. Tampouco posso provar que o Diabo seja uma ficção. É possível que exista o Deus cristão, assim como é possível que existam os deuses do Olimpo, do Egito antigo ou da Babilônia. Mas nenhuma dessas hipóteses é mais provável do que a outra: residem fora da região do conhecimento provável e, portanto, não há razão para considerar qualquer uma delas.”

“O medo é base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana.”

“A felicidade não deixa de ser verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim; tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos.”

“No mundo dos valores, a natureza em si é neutra – nem boa nem ruim, merecedora nem de admiração nem de censura. Somos nós quem criamos valor, e são nossos desejos que o conferem. Desse império somos reis e de nossa realeza nos tornamos indignos se à natureza nos curvamos. Estabelecer uma vida plena cabe portanto a nós, e não à natureza – nem mesmo à natureza personificada como Deus.”

“Para alguns, a prisão é uma boa forma de impedir o crime; outros sustentam que a educação seria a melhor alternativa.”

“Tolstói condenava toda e qualquer guerra; outros julgavam que a vida de um soldado empenhado em combater pela justiça era extremamente nobre.”

“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. Tanto o conhecimento como o amor são indefinidamente extensíveis; logo, por melhor que possa ser uma vida, é sempre possível imaginar uma vida melhor. Nem o amor sem o conhecimento, nem o conhecimento sem o amor podem produzir uma vida virtuosa.”

“Ainda que o amor e o conhecimento sejam ambos necessários, em certo sentido o amor é mais fundamental, na medida em que levará indivíduos inteligentes a buscar o conhecimento a fim de descobrir de que modo beneficiar aqueles a quem amam.”

“Amor é uma palavra que abrange uma variedade de sentimentos; empreguei-a propositalmente porque desejo incluí-los todos. O amor como emoção – sentimento a que me refiro, já que o amor ‘por princípio’ não me parece legítimo – desloca-se entre dois pólos: de um lado, o puro deleite na contemplação; de outro, a benevolência pura.”

“De fato, afigura-se plausível que toda emoção altruística seja uma espécie de transbordamento do amor paternal, ou por vezes a sua sublimação. Na falta de um termo melhor, devo chamar essa emoção de ‘benevolência’”.

“O amor, em sua totalidade, é uma combinação indissolúvel de dois elementos, deleite e benquerer.”

“O santo ascético e o sábio desinteressado não se constituem em seres humanos completos.”

“Quando afirmei que a vida virtuosa consiste no amor guiado pelo conhecimento, o desejo que me inspirou não foi senão o de viver essa vida o máximo possível e de ver vivê-la outras pessoas.”

“(…) a prudência faz parte de uma vida virtuosa.”

“Mas há um outro método, mais fundamental e muito mais satisfatório quando bem sucedido. Implica modificar os caracteres e os desejos dos homens, a fim de minimizar situações de conflito, fazendo com que o sucesso dos desejos de um homem seja compatível, tanto quanto possível, com os desejos de outro. Eis porque o amor é melhor do que o ódio – porque, em vez de conflito, confere harmonia aos desejos dos indíviduos envolvidos.”

“É evidente que um homem provido de uma perspectiva científica da vida não se pode deixar intimidar pelos textos das Escrituras ou pelo ensinamentos da Igreja. Não lhe satisfará dizer ‘este ou aquele ato constitui pecado, e isso encerra a questão’. Investigará se tal ato verdadeiramente acarreta algum mal, ou se, pelo contrário, o que acarreta algum mal é crê-lo pecaminoso.”

“Rapazes e moças deveriam aprender a respeitar reciprocamente sua liberdade; deveriam ser levados a perceber que nada confere a um ser humano direitos sobre o outro e que o ciúme e a possessividade aniquilam o amor. Deveriam aprender que trazer ao mundo outro ser humano é algo muito sério e que só pode ser assumido quando se tem certeza que a criança contará com uma razoável expectativa de saúde, um ambiente adequado e o cuidado dos pais. Não obstante, deveriam aprender métodos de natalidade, de modo a assegurar que seus filhos só viessem ao mundo quando desejados. Por fim, deveriam tomar conhecimento dos perigos causados pelas doenças venéreas, assim como os métodos de prevenção e cura. O aumento da felicidade humana que se pode esperar da educação sexual aplicada nessas bases é imensurável.”

“Deve-se reconhecer que, na ausência de filhos, as relações sexuais constituem um assunto de caráter inteiramente privado, que não diz respeito nem ao Estado, nem ao próximo.”

“Ainda mais danosa que a superstição teológica é a superstição do nacionalismo, do dever para com o próprio Estado e nada mais.”

“Deveríamos tratar o criminoso tal como alguém que sofra de uma epidemia. Cada qual é um perigo público e cada qual deve ter liberdade limitada até que deixe de apresentar uma ameaça à sociedade. Entretanto, enquanto o homem que sofre de uma pestilência é objeto de solidariedade e comiseração, o criminoso é objeto de exacração. Isso é totalmente irracional. E é por conta dessa diferença de postura que nossas prisões são muito menos bem-sucedidas em curar as tendências criminosas do que nossos hospitais em curar enfermidades.”

“A vida virtuosa tal como a concebemos demanda um grande número de condições sociais, sem as quais não pode realizar-se. Como já dissemos, ela é uma vida inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. O conhecimento necessário só poderá existir se os governos ou milionários dedicarem-se à sua descoberta e difusão.”

“(…) o conhecimento em ciência, história, literatura e arte deveria estar ao alcance de todos aqueles que o desejassem; isso requer arranjos cuidadosos por parte das autoridades públicas e não deve ser alcançado por meio da conversão religiosa.”

“O ponto importante é que, a despeito de tudo o que distingue uma vida boa da uma vida má, o mundo é uma unidade, e o homem que finge viver de maneira independente não passa de um parasita consciente ou inconsciente.”

“Para viver uma vida plena em seu mais amplo sentido, um homem deve contar com uma boa educação, amigos, amor, filhos (se os desejar), uma renda suficiente para manter-se a salvo da pobreza e de graves apreensões, uma boa saúde e um trabalho que não lhe seja desinteressante. Todas essas coisas, em diferentes medidas, dependem da comunidade, podendo ser beneficiadas ou obstruídas pelos acontecimentos políticos. Uma vida de bem deve ser vivida em uma sociedade de bem; do contrário, ela não se faz plenamente possível.”

“Não há atalhos para uma vida virtuosa, seja ela individual ou social. Para construir uma vida virtuosa, precisamos erigir a inteligência, o autocontrole e a solidariedade.”

“As ações dos homens são danosas quer pela ignorância, quer pelos maus desejos. Os “maus” desejos, quando falamos do ponto de vista social, podem ser definidos como os que tendem a frustrar os desejos alheios, ou, mais exatamente, como aqueles que mais frustam os desejos alheios que se realizam.”

“É nos momentos de pânico que a crueldade se torna mais ampla e mais atroz.”

“Combater o medo, portanto, deve ser uma das preocupações primordiais do moralista dotado de postura científica. Pode-se fazê-lo de duas maneiras: aumentando a segurança e cultivando a coragem.”

“Para que uma vez mais possamos progredir, precisamos uma vez mais nos dominar pela esperança.”

“Tudo o que aumenta a segurança geral tende a diminuir a crueldade.”

“(…) nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Métodos como esses só farão aumentar o terror dentro do grupo dominante, receoso de que o ressentimento leve os oprimidos a rebelar-se. Somente justiça pode conferir segurança; e por “justiça” me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”

“A coragem em combate de modo algum constitui a única forma de coragem – sequer, talvez, a mais imporante. Há coragem no enfrentamento da pobreza, do escárnio e da hostilidade de nosso próprio rebanho. (…) Há, também e acima de tudo, a coragem de se pensar calma e racionalmente diante do perigo e de se reprimir o impulso do medo-pânico e do ódio-pânico. São essas coisas que certamente a educação pode ajudar a proporcionar. E o ensino de todas as formas de coragem torna-se mais fácil quando se pode contar com boa saúde, a mente sã, uma alimentação adequada e a liberdade para exercer os impulsos fundamentais.”

“Ao que tudo indica, não há limite para o que a ciência poderia fazer no sentido de aumentar a coragem – mediante, por exemplo, a experiência do perigo, uma vida atlética e uma dieta adequada.”

“A coragem estimulada nos segmentos mais pobres da comunidade não é senão uma coragem subserviente, não o tipo que envolve iniciativa e liderança. Quando as qualidades que hoje conferem liderança se tornarem universais, já não haverá líderes e seguidores, e a democracia por fim terá sido concretizada.”

“O medo não é a única fonte de maldade; a inveja e as desilusões têm também a sua cota.”

“Um homem ou uma mulher frustrados sexualmente tendem a mostrar-se repletos de inveja; geralmente isso se expressa na forma de condenação moral aos mais afortunados. Muito da força motriz contida nos movimentos revolucionários se deve à inveja aos ricos. O ciúme é, naturalmente, uma forma especial de inveja – a inveja do amor.”

“Não há, até onde sei, uma maneira pela que se possa lidar com a inveja, senão tornando mais feliz e plena a vida dos invejosos e acalentando nos jovens a ideia de empreendimentos coletivos, em lugar da competição. As piores espécies de inveja se manifestam naqueles que não têm uma vida plena no tocante ao casamento, filhos ou carreira.”

“Onde a inveja for inevitável, devemos utilizá-la como estímulo para os nossos próprios esforços, e não para frustrar os esforços de nossos rivais.”

“Não há, provavelmente, limite para o que a ciência pode fazer no sentido de aumentar a excelência positiva. A saúde pública, por exemplo, já foi bastante melhorada; apesar das lamúrias dos que idealizam o passado, vivemos mais tempo e somos acometidos de menos enfermidades do que qualquer classe social ou nação do século XVIII.”

“Quando descobrirmos de que modo o caráter depende de condições fisiológicas, seremos capazes, caso escolhamos, de produzir um número muito maior do tipo de ser humano que admiramos. Inteligência, capacidade artística, benevolência – não há dúvida que todas essas coisas poderiam ser ampliadas com a ciência.”

“O que é natural? Grosso modo, tudo aquilo com que o falante estava acostumado na infância.”

“É inútil dar aos homens algo abstratamente considerado como ‘bom’; devemos dar-lhes algo que desejem ou de que necessitem, se quisermos contribuir para sua felicidade. Com o tempo, talvez a ciência aprenda a moldar nossos desejos de modo que não contrastem com os desejos dos outros (…); estaremos aptos, pois, a satisfazer uma proporção muito maior de desejos do que atualmente.”

“Um simples desejo considerado isoladamente não é melhor nem pior que qualquer outro.”

“Poderá a ciência, caso queira, permitir que os nossos netos vivam uma vida plena, ao proporcionar-lhes conhecimento, autocontrole e atributos que produzam harmonia, em vez de discórdia. No momento, ela está ensinando nossos filhos a matarem uns aos outros (…). Mas essa fase passará quando os homens tiverem adquirido sobre suas paixões o mesmo domínio que já possuem sobre as forças do mundo exterior. Finalmente, então, teremos conquistado a nossa liberdade.”

Palavras e expressões: canhestro, práticas retóricas, deleites apaixonados, cadafalso, tiritar, tépido, esplendor, potentados, inextricavelmente, superfluidade, esmaecer, superstição, pecaminoso, infligir, ascetismo, fustigam, malevolência, júbilo, recrudescimento, emoção altruística, mistificações, aplacar, espreitam, abismos, lamúrias, dogmas antiquados.

noqueacredito

reading challenge #6: ecce homo – friedrich nietzsche

6. ECCE HOMOFRIEDRICH NIETZSCHE (publicado originalmente em 1888).

Categorias: ‘a book at the bottom of your to-read list’ e ‘a book you own but have never read’.

Resumo: Autobiografia de Nietzsche, mas ele discorre muito menos de si mesmo do que de suas obras e da aversão que tem do cristianismo e da Alemanha da sua época. Infelizmente, fala muito superficialmente da relação com os familiares e quase nada da infância.  Livro curto, mas denso demais. Fiquei atônita e bastante reflexiva desde que terminei ontem à noite e continuo quase 24h depois. Acho que é necessário muita coragem pra efetivamente ler Nietzsche (no sentido de internalizar e refletir).

Trechos que penso que merecem destaque:

“Sou inclusive por natureza a antítese da espécie de homem que, até o presente, foi venerada como virtuosa.”

“Quanta verdade pode um espírito suportar, quanto pode arriscar um espírito? (…) Cada conquista, cada passo em frente no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo mesmo, da limpeza para consigo.”

“O homem do conhecimento não só deve poder amar seus inimigos, mas deve poder também odiar seus amigos. (…) Vocês não se haviam ainda procurado a vocês próprios então me encontraram. Assim fazem todos os crentes; por isso vale tão pouco toda fé. Agora lhes ordeno que me percam e que se encontrem a vocês mesmos; e só quando todos me tiverem renegado é que voltarei entre vocês…” [Trechos de Assim Falou Zaratustra citados por Nietzsche no prólogo do livro].

“E como é que se reconhece, no fundo, um pleno restabelecimento? Em que um homem bem restabelecido agrada a nossos sentidos: no fato de ter sido talhado em madeira que seja ao mesmo tempo dura, tenra e odorífera. (…) Adivinha os remédios contra os prejuízos, explora a má sorte em seu proveito; aquilo que não o mata, o torna mais forte. (…) Está sempre em sua companhia, seja que frequente livros, homens ou paisagens; honra enquanto escolhe, enquanto admite, enquanto confia. (…) Examina com cuidado o estímulo que se apresenta. (…) Não acredita em “desgraça” nem em “culpa”: ele se sente bem consigo mesmo, com os outros, sabe esquecer.”

“Tenho necessidade de solidão, isto é, de convalescência, de regresso a mim, do sopro de uma brisa leve que passa livremente…”

“Ficar sentado o menos possível; não dar crédito a nenhum pensamento que não tenha surgido ao ar livre e quanto se faz livremente exercícios físicos. (…) O sedentarismo – já o disse uma vez – é o verdadeiro pecado contra o espírito santo.”

“O gênio tem por condição o ar seco, o céu puro – ou seja, um metabolismo rápido, a possibilidade de renovar sempre grandes quantidades de energia.”

“Não faz parte de meu tipo ler muitas coisas e de toda espécie: uma sala de leitura me deixa doente. Tampouco faz parte de meu gênero amar muitas coisas e de toda espécie. (…) No fundo, é a um pequeno número de velhos franceses que regresso sempre: creio só na cultura francesa e tenho por equívoco tudo quanto na Europa se chama ‘cultura’.”

“Talvez esteja eu mesmo com ciúme de Stendhal? Ele me tirou a melhor piada de ateu que eu precisamente poderia ter inventado: ‘A única desculpa de Deus é que ele não existe.’”

“Não conheço nenhuma leitura que dilacere o coração como Shakespeare: quanto tem que ter sofrido um homem para nesse ponto necessitar ser bufão! – Compreende-se realmente Hamlet? Não é a dúvida, é a certeza que enlouquece. (…) Nós, todos nós, temos medo da verdade.”

“O primeiro contato com Wagner não deixou de ser o primeiro instante da minha vida em que respirei: eu o senti, o venerei como uma terra estrangeira, como antítese, como protesto… (…) Ponderando tudo, eu não teria podido suportar minha juventude sem a música de Wagner.”

“Recusar ver, ouvir, deixar que se acerquem muitas coisas – primeira sabedoria, primeira prova de que não se é um acaso, mas uma necessidade. (…) Separar-se, desvincular-se de tudo o que obrigaria a sempre mais dizer não. (…) Nossos grandes dispêndios são os pequenos que se acumulam.”

“Outra medida da inteligência e de autodefesa consiste em reagir o mais raramente possível e a se subtrair às situações e às condições nas quais se estaria condenado a exibir por assim dizer sua própria ‘liberdade’, sua iniciativa e tornar-se um puro e simples reagente.”

“Chegar a ser o que se é supõe que não se duvide minimamente do que se é. Desse ponto de vista, até mesmo os desacertos da vida têm seu sentido e seu valor próprios, precisamente como os descaminhos e os distanciamentos episódicos do caminho, as hesitações, os pudores.”

“Cuidado com todas as grandes palavras, com todas as grandes atitudes! (…) Cuidado com todos os homens extravagantes!”

“Tudo o que até agora a humanidade considerou sério, não são nem sequer realidades, são simples fantasmas da imaginação ou, para me exprimir com mais rigor, são mentiras derivadas de maus instintos de naturezas doentias.”

“Também sofrer pela solidão é uma objeção – eu, de minha parte sempre sofri por causa da multidão…”

“No final das contas, ninguém pode escutar nas coisas, inclusive nos livros, mais do que já sabe. Não se tem ouvidos para escutar aquilo a que não se tem acesso pela experiência vivida. (…) Aquele que supõe ter entendido alguma coisa de mim tomou algo emprestado de mim à sua imagem.”

“O que importa é não ter sido nunca complacente consigo, é preciso ter dureza nas próprias atitudes para ser feliz e estar de bom humor entre verdades todas elas duras. Quando me empenho em imaginar um leitor perfeito, sempre resulta um fenômeno de coragem e de curiosidade e, além disso, algo maleável, astuto, cicunspecto, um aventureiro e um descobridor nato.”

“A Circe da humanidade, a moral, falsificou – arquimoralizou – todo o psicológico dos pés à cabeça, até chegar a esse espantoso absurdo de que o amor deveria ser algo “não-egoísta”… É preciso estar sentado firmemente em si mesmo, estar corajosamente plantado sobre duas pernas, pois, de outro modo é absolutamente impossível amar.”

“A mulher é indizivelmente mais má que o homem, e também mais inteligente; a bondade é nela uma forma de degenerescência… (…) Quanto mais a mulher for verdadeiramente mulher, tanto mais se defenderá com pés e mãos contra os direitos em geral: o estado de natureza, a eterna guerra entre os sexos, lhe confere, e de longe, o primeiro lugar.”

“A pregação da castidade é uma incitação pública à contra-natureza. Todo desprezo da vida sexual, toda a adulteração jogada sobre ela por meio da ideia do “impuro” é o próprio atentado contra a vida – é o verdadeiro pecado contra o espírito santo da vida.”

“O gênio do coração, graças a cujo contato todos ficam mais ricos, não abençoados e surpresos, não gratificados e oprimidos como que por bens estranhos, mas mais ricos de si mesmos, mais novos que antes a seus próprios olhos, abertos, penetrados e espiados pelo vento do degelo, talvez mais incerto, mais delicado, mais frágil, mais confuso, mas cheio de esperanças que ainda não têm nome algum, cheio de nova vontade e de novas correntes, cheio de novas contra-vontades e de novas contra-correntes…”

“A tragédia é precisamente a prova de que os gregos não eram de modo algum pessimistas: Schopenhauer se enganou a respeito, como se enganou em tudo.”

“Sócrates, reconhecido pela primeira vez como instrumento da dissolução grega, como típico decadente. A ‘racionalidade’ contra o instinto. A ‘racionalidade’ a qualquer preço, como força perigosa que solapa a vida!”

“Humano, demasiado Humano é o monumento de uma crise. Diz de si mesmo que é um livro para espíritos livre: quase cada frase dele exprime uma vitória – com ele me liberei de tudo o que não pertencia à minha natureza. (…) A expressão ‘espírito livre’ não poderia ter nele outro sentido: um espírito tornado livre, que voltou a tomar posse de si próprio.”

“Nunca fui tão feliz comigo mesmo como nos períodos mais doentios e mais dolorosos de minha vida.”

“Há tantas auroras que ainda não resplandeceram…”

“A questão da origem dos valores morais é, pois, para mim uma questão capital, porque condiciona o futuro da humanidade. A exigência de acreditar que no fundo tudo se encontra nas melhores mãos, que um livro, a Bíblia, fornece a segurança definitiva sobre o governo e a sabedoria divinos quanto aos destinos da humanidade, é, se for traduzido em termos de realidade, a vontade de não deixar aparecer a verdade sobre o lamentável estado de coisas contrário, a saber, que a humanidade esteve até agora nas piores mãos, que foi governada pelos fracassados, pelos astuciosos vingativos, os pretensos ‘santos’, esses caluniadores do mundo e violentadores do homem.”

“(…) tudo que é decisivo surge ‘apesar de’ algo…”

“Nas costas de cada metáfora chegas a cada verdade. Aqui se abrem bruscamente para ti todas as palavras do ser e o cofre da palavra. (…) Esta é a minha experiência da inspiração; não duvido que se tenha que recuar milênios para encontrar alguém que possa dizer ‘também é a minha’.”

“(…) foi o próprio Deus que, sob a aparência de serpente, ao final da sua tarefa, repousou sob a árvore do conhecimento: assim descansava de ser Deus…”

“Há mais cinismo na benevolência para comigo que em qualquer ódio…”

“Não sou um ser humano, sou dinamite.”

“Mas a minha verdade é terrível: pois até hoje a mentira é que foi sendo chamada verdade.”

“Eu sou o primeiro imoralista: por isso sou o destruidor por excelência.”

“A ideia de ‘Deus’ inventada para servir de antítese à vida – nela, tudo o que há de nocivo, de envenenado, de caluniador, toda a hostilidade mortal contra a vida sintetizada numa espantosa unidade. A ideia de ‘além’, de ‘verdade do mundo’, inventada para depreciar o único mundo que existe – para não deixar a nossa realidade terrestre nenhuma finalidade, nenhuma razão, nenhuma tarefa a propósito! A ideia de ‘alma’, de ‘espírito’ e finalmente de ‘imortalidade da alma’, inventada para desprezar o corpo, para torná-lo doentio – ‘santo’ – para contrapor uma leviandade horripilante a todas as coisas que merecem seriedade na vida, às questões de alimentação, de habitação, de regime intelectual, do tratamento dos doentes, da higiene, da meteorologia. Em vez de saúde, a ‘salvação da alma’ – quer dizer uma loucura circular intermediária entre as convulsões da penitência e a histeria da redenção! A ideia de ‘pecado’ inventada com o correspondente instrumento de tortura, a ideia do ‘livre-arbítrio’, a fim de desconcertar os instintos, a fim de insuflar a desconfiança contra os instintos para fazer dela uma segunda natureza! Na ideia de ‘desinteresse’, daquele ‘que renuncia a si mesmo’, encontra-se o verdadeiro sinal da decadência, a atração para o nocivo, a incapacidade de discernir o próprio interesse, a autodestruição transformada em sinal do valor, em ‘dever’, terrível – na ideia do homem bom, o favorecimento de tudo o que é fraco, doente, deficiente, sofredor de si, de tudo o que deve parecer – a lei da seleção invertida, um ideal fabricado a partir da oposição ao homem orgulhoso e bem sucedido ao homem que diz sim, ao homem seguro de um futuro, garante do futuro… E em tudo isso se acreditou, sob a denominação de ‘moral’ – Écrasez l’infâme! (expressão em francês que significa: esmaguem o infamante).”

Palavras e expressões: perquiridor, aureolado, petulância, desfaçatez, limiar,  insólita,  algoz, eruptiva, afável, “nitimur in vetitum” (lançamo-nos em direção ao proibido), híbrido, degeneresecência, filigrana, mórbido, “summa summarum” (no conjunto, em resumo), blasfêmia, cruentamente, abissal, atavismo, impertinentes, dispépticos, pusilanimidade, nefastos, “sui generis” (peculiar), mise em scène, sublime, “nosce te ipsum” (conheça-te a ti mesmo), “amor fati” (amor ao destino), estoicismo, profético, pernicioso, filisteu, indecoroso, lúgubre, incorrigíveis, mentecaptos, predestinação, reviravolta, petulância, prodígios, inverossímeis, superstição, fineza, refulge, vacilação, acariciadoras, hostilidade, resplandecer, “comme il faut” (como deve ser), etiológico, superabundância, frívolo, inaudita, eloquência, onipresença, transcendente, oniprenseça, abissal,  transvaloração, benevolência, rumorejar, ascético, eufemismo, ingente, indômita, “verum dicere” (dizer a verdade), joranis, probidade, retidão, depravação, superlativo, inelutável, “amor fati” (amor ao destino), atroz, incomensuravelmente, inaudita, degenerescência, pérfida.

Ecce Homo

reading challenge #5: mensagem – fernando pessoa

5. MENSAGEMFERNANDO PESSOA (publicado originalmente em 1934).

Categorias: ‘a book you can finish in a day’ e ‘a popular author’s first book’.

Resumo: Trata-se de uma compilação de poesias de Fernando Pessoa sobre a história de Portugal desde a fundação da cidade de Lisboa e cheio de simbolismos e aforismos. Acredito que seja bem interessante pra quem conhece a história monárquica portuguesa desde as grandes navegações.

Estrofes que mais gostei:

“A vida é breve, a alma é vasta.”

“Todo começo é involuntário.”

“As nações todas são mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós.”

“Cheio de Deus, não temo o que virá, pois, venha o que vier, nunca será maior do que a minha alma.”

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”

“Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal. (…) Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor.”

“Não sei a hora, mas sei que há a hora.”

“Mas a chama, que a vida em nós criou, se ainda há vida ainda não é finda.”

“Triste de quem é feliz! Viva porque a vida dura. Nada na alma lhe diz mais que a lição da raiz – ter por vida a sepultura.”

mensagem

reading challenge #4: breves narrativas diplomáticas – celso amorim

4. BREVES NARRATIVAS DIPLOMÁTICASCELSO AMORIM (publicado em 2013).

Categorias: ‘a non-fiction book’ e ‘a book based on a true story’.

Resumo: Celso Amorim se vale das anotações e experiências que teve como Ministro das Relações Exteriores nos primeiros anos do primeiro governo do ex-presidente Lula. Conta de forma pormenorizada as posições do governo para os temas internacionais do momento e os detalhes das negociações com os outros países em encontros bilaterais, foros de organizações internacionais, no Brasil e worldwide. Usa uma linguagem simples para temas complexos, gostei das curiosidades trazidas nas notas de rodapé e das citações que ele mesmo faz.

Alguns trechos que gostei:

Sobre encontros com Dominique de Villepin (Ministro da França) em 2003: (i) na época da tentativa de resgate da senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt que foi sequestrada pelas FARC em que agentes franceses armados desembarcaram sem autorização no Brasil: “Tivemos, nesse episódio de julho de 2003, conversas duras, que terminaram com um pedido de desculpas formal do governo francês – postura não tão óbvia para uma nação que, segundo a lenda, teria dito que o Brasil não era um país sério.” Na nota de rodapé diz: Frase atribuída a Charles de Gaulle, a propósito do célebre episódio conhecido como “Guerra da Lagosta”. Outros afirmam, porém, que a frase teria sido dita pelo embaixador do Brasil na França à época do episódio, (ii) “A relação de empatia que estabelecemos terá contribuído para explicitar o apoio da França ao Brasil como possível membro permanente do Conselho de Segurança, expresso, pela primeira vez, em conferência de imprensa à margem de uma reunião da Comissão Geral Franco-Brasileira, em julho de 2003.”

“Não tínhamos dúvida de que, sem a sanção multilateral do conselho, órgão detentor da responsabilidade primária por decisões afetas à paz e à segurança internacionais, a ação da coalizão liderada pelos Estados Unidos era unilateral e ilegal.”

“A posição do Brasil na questão iraquiana foi fiel à sua tradicional defesa de paz e contrária ao unilateralismo.”

“Quando me perguntam se a guerra é inevitável, penso que faz parte da descrição profissional de um ministro das Relações Exteriores acreditar que toda guerra é evitável até que pelo menos o primeiro tiro seja disparado. Então, até que isso ocorra, todos os nossos esforços – podem até ser qualificados de ingênuos por alguns – serão dirigidos à paz.” (Pronunciamento feito no plenário da Câmara dos Deputados em 27 de fevereiro de 2003 sobre do Iraque pela invasão da coalizão liderada pelos EUA.)

“O dossiê da Venezuela ajudou a balizar nossa relação com os Estados Unidos. Por um lado, ambos reconhecíamos a necessidade de trabalhar conjuntamente; por outro, estava claro que isso só era possível com pleno respeito à diferença de posições. Se no caso do Iraque a diplomacia do governo Lula disse a que veio, no caso da Venezuela ela disse como veio. Demonstrou que os momentos de maior confiança entre Brasil e Estados Unidos não são os de alinhamento automático, mas os de uma atitude independente e firme, porém aberta ao diálogo.”

“Cheguei a dizer ao presidente venezuelano (Hugo Chávez) que era preciso, como no caso da mulher de César, que o referendo não só fosse honesto e livre, mas que parecesse honesto e livre. Para isso era essencial que observadores internacionais assistissem ao pleito.”

“É que o projeto da Alca, como concebido originalmente, não era para ser nem pragmático nem equilibrado. Tinha natureza política além de econômica. Visava criar um espaço integrado em que os interesses econômicos norte-americanos continuassem a predominar, ao mesmo tempo em que demarcava nitidamente uma área de hegemonia dos Estados Unidos.”

“Muitas vezes, tinha que lidar com problemas específicos sem dominar totalmente os detalhes. (…) Por isso tinha que ser muito cuidadoso e, na dúvida, adotar uma posição cautelosa.”

“Ao viajar à África do Sul, como representante do presidente Itamar Franco para a posse de Nelson Mandela, em maio de 1994, notei que aquele país até então fechado no apartheid e sob sanções da comunidade internacional, tinha com o nosso notáveis semelhanças em nível de renda, desigualdade social e, sobretudo, no grande potencial de mudança.”

Sobre Nkosazana Dlamini-Zuma (à época Ministra da Saúde da África do Sul): “Não falava muito. Às vezes parecia meditar longamente sobre o comentário de um interlocutor. Mas sempre terminava por dar opiniões firmes e judiciosas.”

“Não posso entender que os empresários colombianos, que não temem a concorrência dos industriais e agricultores norte-americanos, tenham tanto medo dos empresários brasileiros.”

“Ouvi do presidente Hifikepunye Pohamba (de Angola) a gratificante observação de que o Brasil é um parceiro que não se limita a ‘dar o pão’, mas ‘ensina a fazê-lo’.”

Palavras: ativa, altiva, soberana, malfadada, placet, princípio da não intervenção, a priori, pseudomultilateral, problem solving, antidumping, epitáfio da Alca, démarche, savoir-faire, en passant, ceticismo, realpolitik, noblesse oblige, não indiferença.

BREVES NARRATIVAS