Hello from Morocco.

“Sonhei contigo noite passada. Está tudo bem? Hope so.

O curso em Lisboa foi um barato, nos sentidos pessoal e profissional. Nenhum dos cerca de 35 alunos tinha inglês como língua materna. Havia pessoas da Grécia, Suécia, Áustria, Bósnia, Hungria, República Tcheca, Espanha, França, Itália e até Ucrânia (enchi a menina de pergunta sobre a guerra atual que assola o país dela). As meninas que mais me identifiquei e conversei são da Bélgica, Macedônia (amei, só conhecia Alexandre, o Grande) e da Polônia. Eu era uma das mais velhas do grupo (a maioria era composta de estudantes) e fui a guia e tradutora do grupo nos momentos que os organizadores da ELSA não estavam. Haha. Adoravam o fato de eu falar português, no entanto, nem sempre eu conseguia me comunicar com os portugueses com facilidade (eles falam pra dentro, rápido e comem as vogais).

As aulas foram todas em inglês, praticamente todos professores eram portugueses, mas com experiência nos EUA (uma das professoras leciona em Harvard), salvo um – top 3 pra mim, que era holandês (conversamos bastante sobre a Copa) e super expert em direito autoral. O nome dele é P. Bernt e ele levou para discussão casos bem interessantes de copyright que foram para a apreciação da Corte da União Europeia recentemente, inclusive alguns envolvendo partidas de futebol.

Falou-se bastante sobre os desafios da propriedade intelectual nesse mundo digital e em constante transformação (muita coisa básica, mas novidades too), foco em copyright, mas trademark e patentes too, sob a ótica das diretivas da UE e legislação local comparada/harmonização. (…)

Estou apaixonada por Portugal. Lisboa é ainda mais encantadora que em “Trem noturno para Lisboa”. Fui à casa do Fernando Pessoa (a última que ele morou), você já foi? O quarto dele do jeitinho que era e os livros dele com as anotações a lápis feitas por ele mesmo (ele anotava em inglês too, vários “excellent” eu consegui ler de trechos com highlights). Há uma seleção de poesias proferidas por personalidades brasileiras arrepiante. Chorei duas vezes. Hihi. By the way, no monastério dos Jerônimos (onde o corpo dele está enterrado), adivinha trecho de qual poesia está cravado na lápide… Veja na foto anexa. Lembrei de você. 🙂

Consegui ir também à Sintra, uma cidadezinha medieval ao norte de Lisboa que é coisa mais linda (parece um conto de fadas, com castelo, palácio, flores, árvores e casinhas de telhado em forma de cone com lareira) e ao Algarve (cidades chamadas Lagos, Lagoa e Albufeira), uma região ao sul que é incrível: águas transparentes (mas gelaaaaadas), cavernas e as pessoas especiais que encontramos no caminho.

Já fui também à Sevilha na Espanha (apaixonei too, você já foi?). Capital da Andaluzia, foi a maior cidade da Europa na época das grandes navegações, recebia todas as especiarias advindas das Índias e Américas.

Desde o final de julho estou no Marrocos, dormi ontem num acampamento no Saara (céu cheiiiiiinho de estrela e a luz da lua tão forte que nem precisava mesmo de luz elétrica). Choque cultural isso aqui em todos os sentidos: comida, religião, idioma, roupas, arquitetura (bem parecida com Sevilha que foi ocupada durante muito tempo por árabes há tempos, but still…), tudo. Já estive em Asilah (Búzios dos marroquinos, pôr-do-sol lindo), Chefchaouen (cidade que começou a ser formar no paleolítico – ! – toda pintadinha de azul – as casas com azul mais claro, dos mouros e mais escuro, dos judeus – ambos vieram fugindo das perseguições cristãs) e Fez (a primeira capital do Marrocos, hoje capital espiritual e onde fica a primeira instituição de ensino da História – hoje uma Universidade, parece que foi fundada nos anos 800 d.C.). Fui lá, mas infelizmente não é aberta a visitações, nem sequer a biblioteca, consegui ver apenas a bela mesquita (tem em todos os lugares, eles rezam 5 vezes por dia). Nesse sentido, é que nem Istambul, os microfones das mesquitas chamam os fieis para as orações e os sons ecoam na medina inteira. Umas 3 pessoas daqui falaram da novela O Clone, bacana, né? Disseram ter gostado inclusive. Fico maravilhada com isso, não há fronteiras pra determinadas coisas. Por outro lado, pobreza e alguns costumes lamentáveis do meu ponto de vista. O nosso guia em Fez nos contou que as burcas e mil roupas que as mulheres são acostumadas a usar fora de casa e o fato de as mulheres não poderem rezar no mesmo local que os homens nas mesquitas é para que o lado “diabólico” dos homens não seja tentado (eles parecem acreditar mesmo em céu e inferno e que Jesus não morreu). Discuti com ele, disse que a meu ver o efeito é inverso e que as pessoas devem buscar controlar as emocões e instintos independentemente do ambiente. Tentei dizer com o maior respeito possível. Díficil demais, né? Ele acha que o que está ocorrendo na Palestina é genocídio e está estranhando o fato de a comunidade árabe estar aparentemente passiva (segundo ele, eles se veem como uma nação só, irmãos, independentemente do Estado – criação humana – em que se encontram). Não tenho acompanhado muito bem daqui e sei que a questão é antiga e muito mais complicada do que parece, muitos interesses em jogo, para muito além das religiões. Segundo ele, as coisas que o noticiário ocidental diz sobre os muçulmanos e o islamismo são bastante equivocadas e enviesadas… Quem sabe…

É isso. Tentei ser breve, mas é uma profusão de sentimentos e pensamentos danada. Selecionei os que acho que você gostará mais de saber.

Shukran (obrigada em árabe – a grafia é linda). 🙂

Um beijo bem grande,
Jô”

Adaptação de e-mail escrito e enviado em 08.08.2014

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