reading challenge #7: no que acredito – bertrand russell

7. NO QUE ACREDITOBERTRAND RUSSELL (originalmente publicado em 1925)

Categorias: “a book a friend recommended” e “a book that made you cry”.

Resumo: Bertrand Russel resume em poucas páginas, de forma relativamente simples, suas crenças mais profundas e densas. Fiquei profundamente tocada e emocionada, na medida em que muitas delas refletem as minhas próprias crenças a partir da minha experiência so far (mas que eu não havia concatenado tão bem e de forma tão ampla até me deparar com esse livro) e posso dizer que passei a ser uma defensora das ideias dele. Deu vontade de sair gritando por aí as palavras escritas por ele nesse livro.

Trechos da apresentação escrita por Alan Ryan que merecem destaque:

“A visão de Russell sobre o comportamento humano era enraizada na tradição empírica que propunha que o desejo é o motor de todas as ações e que o papel da razão é nos dizer como buscar aquilo que buscamos, e não aquilo que, de início, deveríamos perseguir. (…) ‘A razão é e deveria ser escrava das paixões’.”

“Russell acreditava que deveríamos pensar muito detidamente sobre aquilo a que nos propomos, e ele queria mais reflexão, e uma reflexão mais cientificamente orientada, sobre o que deveríamos fazer com nossas vidas. Tratava-se de uma discussão para tentar entender o que de fato queremos.”

“Rivers achava que Freud exagerava os próprios insights, mas não tinha dúvidas de que estamos muito mais à mercê de impulsos inconscientes do que gostamos de acreditar.”

“Paz e felicidade só podem ser asseguradas por meio do estímulo dos instintos criativos e do desvio dos instintos possessivos para fins úteis ou, pelo menos, inofensivos.”

“Nossos impulsos em si não são nem bons nem maus; são fatos brutos. São bons e maus conforme auxiliam ou desfrutam outros impulsos, nossos ou de outras pessoas.”

“Russell defendeu altos ideais que apenas frouxamente estão ligados à busca da felicidade no sentido comum – coragem, por exemplo, o amor à verdade e uma preocupação não-instrumentalista pela natureza.”

“Russell se dizia um agnóstico, indicando que não era impossível que houvesse algum tipo de deus, mas que ele tinha certeza que Deus não existia.”

“Russell era hostil a toda forma de ética que fosse baseada em regras. Acertadamente ele pensava que a moralidade desempenha um papel pequeno na existência. Ninguém observa as regras sobre dever paterno quando cuida de uma criança doente, por exemplo; a pessoa é motivada – ou não – por amor, e em nenhum dos casos a moralidade desempenha qualquer papel. Se às pessoas falta afeição necessária para uma situação, não é possível forçá-las a tê-la por meio de lições de moral, e, se sentem tal afeição, a baliza da moral é redundante.”

“Russell sempre achou o vasto vazio do universo profundamente comovente – aterrorizante e consolador também. Essa emoção fez com que muitos leitores decidissem que Russell era, apesar de tudo, um pensador excepcionalmente religioso.”

Trechos do livro em si que merecem destaque:

“Exceto na astronomia, a humanidade não conquistou a arte de predizer o futuro; nas relações humanas, podemos constatar a existência de forças que conduzem à felicidade e de outras que conduzem ao infortúnio. Não sabemos qual delas prevalecerá, mas, para a agir com sabedoria, devemos estar cientes de ambas.”

“O homem é parte da natureza, não algo que se contraste com ela.”

“Deus e a imortalidade, dogmas centrais da religião cristã, não encontram respaldo na ciência. (…) Sem dúvidas, as pessoas continuarão a alimentar essas crenças, visto que lhe são aprazíveis, como aprazível é atribuir-nos a virtude e aos nossos inimigos o vício. (…) Não pretendo provar que Deus não existe. Tampouco posso provar que o Diabo seja uma ficção. É possível que exista o Deus cristão, assim como é possível que existam os deuses do Olimpo, do Egito antigo ou da Babilônia. Mas nenhuma dessas hipóteses é mais provável do que a outra: residem fora da região do conhecimento provável e, portanto, não há razão para considerar qualquer uma delas.”

“O medo é base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana.”

“A felicidade não deixa de ser verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim; tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos.”

“No mundo dos valores, a natureza em si é neutra – nem boa nem ruim, merecedora nem de admiração nem de censura. Somos nós quem criamos valor, e são nossos desejos que o conferem. Desse império somos reis e de nossa realeza nos tornamos indignos se à natureza nos curvamos. Estabelecer uma vida plena cabe portanto a nós, e não à natureza – nem mesmo à natureza personificada como Deus.”

“Para alguns, a prisão é uma boa forma de impedir o crime; outros sustentam que a educação seria a melhor alternativa.”

“Tolstói condenava toda e qualquer guerra; outros julgavam que a vida de um soldado empenhado em combater pela justiça era extremamente nobre.”

“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. Tanto o conhecimento como o amor são indefinidamente extensíveis; logo, por melhor que possa ser uma vida, é sempre possível imaginar uma vida melhor. Nem o amor sem o conhecimento, nem o conhecimento sem o amor podem produzir uma vida virtuosa.”

“Ainda que o amor e o conhecimento sejam ambos necessários, em certo sentido o amor é mais fundamental, na medida em que levará indivíduos inteligentes a buscar o conhecimento a fim de descobrir de que modo beneficiar aqueles a quem amam.”

“Amor é uma palavra que abrange uma variedade de sentimentos; empreguei-a propositalmente porque desejo incluí-los todos. O amor como emoção – sentimento a que me refiro, já que o amor ‘por princípio’ não me parece legítimo – desloca-se entre dois pólos: de um lado, o puro deleite na contemplação; de outro, a benevolência pura.”

“De fato, afigura-se plausível que toda emoção altruística seja uma espécie de transbordamento do amor paternal, ou por vezes a sua sublimação. Na falta de um termo melhor, devo chamar essa emoção de ‘benevolência’”.

“O amor, em sua totalidade, é uma combinação indissolúvel de dois elementos, deleite e benquerer.”

“O santo ascético e o sábio desinteressado não se constituem em seres humanos completos.”

“Quando afirmei que a vida virtuosa consiste no amor guiado pelo conhecimento, o desejo que me inspirou não foi senão o de viver essa vida o máximo possível e de ver vivê-la outras pessoas.”

“(…) a prudência faz parte de uma vida virtuosa.”

“Mas há um outro método, mais fundamental e muito mais satisfatório quando bem sucedido. Implica modificar os caracteres e os desejos dos homens, a fim de minimizar situações de conflito, fazendo com que o sucesso dos desejos de um homem seja compatível, tanto quanto possível, com os desejos de outro. Eis porque o amor é melhor do que o ódio – porque, em vez de conflito, confere harmonia aos desejos dos indíviduos envolvidos.”

“É evidente que um homem provido de uma perspectiva científica da vida não se pode deixar intimidar pelos textos das Escrituras ou pelo ensinamentos da Igreja. Não lhe satisfará dizer ‘este ou aquele ato constitui pecado, e isso encerra a questão’. Investigará se tal ato verdadeiramente acarreta algum mal, ou se, pelo contrário, o que acarreta algum mal é crê-lo pecaminoso.”

“Rapazes e moças deveriam aprender a respeitar reciprocamente sua liberdade; deveriam ser levados a perceber que nada confere a um ser humano direitos sobre o outro e que o ciúme e a possessividade aniquilam o amor. Deveriam aprender que trazer ao mundo outro ser humano é algo muito sério e que só pode ser assumido quando se tem certeza que a criança contará com uma razoável expectativa de saúde, um ambiente adequado e o cuidado dos pais. Não obstante, deveriam aprender métodos de natalidade, de modo a assegurar que seus filhos só viessem ao mundo quando desejados. Por fim, deveriam tomar conhecimento dos perigos causados pelas doenças venéreas, assim como os métodos de prevenção e cura. O aumento da felicidade humana que se pode esperar da educação sexual aplicada nessas bases é imensurável.”

“Deve-se reconhecer que, na ausência de filhos, as relações sexuais constituem um assunto de caráter inteiramente privado, que não diz respeito nem ao Estado, nem ao próximo.”

“Ainda mais danosa que a superstição teológica é a superstição do nacionalismo, do dever para com o próprio Estado e nada mais.”

“Deveríamos tratar o criminoso tal como alguém que sofra de uma epidemia. Cada qual é um perigo público e cada qual deve ter liberdade limitada até que deixe de apresentar uma ameaça à sociedade. Entretanto, enquanto o homem que sofre de uma pestilência é objeto de solidariedade e comiseração, o criminoso é objeto de exacração. Isso é totalmente irracional. E é por conta dessa diferença de postura que nossas prisões são muito menos bem-sucedidas em curar as tendências criminosas do que nossos hospitais em curar enfermidades.”

“A vida virtuosa tal como a concebemos demanda um grande número de condições sociais, sem as quais não pode realizar-se. Como já dissemos, ela é uma vida inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. O conhecimento necessário só poderá existir se os governos ou milionários dedicarem-se à sua descoberta e difusão.”

“(…) o conhecimento em ciência, história, literatura e arte deveria estar ao alcance de todos aqueles que o desejassem; isso requer arranjos cuidadosos por parte das autoridades públicas e não deve ser alcançado por meio da conversão religiosa.”

“O ponto importante é que, a despeito de tudo o que distingue uma vida boa da uma vida má, o mundo é uma unidade, e o homem que finge viver de maneira independente não passa de um parasita consciente ou inconsciente.”

“Para viver uma vida plena em seu mais amplo sentido, um homem deve contar com uma boa educação, amigos, amor, filhos (se os desejar), uma renda suficiente para manter-se a salvo da pobreza e de graves apreensões, uma boa saúde e um trabalho que não lhe seja desinteressante. Todas essas coisas, em diferentes medidas, dependem da comunidade, podendo ser beneficiadas ou obstruídas pelos acontecimentos políticos. Uma vida de bem deve ser vivida em uma sociedade de bem; do contrário, ela não se faz plenamente possível.”

“Não há atalhos para uma vida virtuosa, seja ela individual ou social. Para construir uma vida virtuosa, precisamos erigir a inteligência, o autocontrole e a solidariedade.”

“As ações dos homens são danosas quer pela ignorância, quer pelos maus desejos. Os “maus” desejos, quando falamos do ponto de vista social, podem ser definidos como os que tendem a frustrar os desejos alheios, ou, mais exatamente, como aqueles que mais frustam os desejos alheios que se realizam.”

“É nos momentos de pânico que a crueldade se torna mais ampla e mais atroz.”

“Combater o medo, portanto, deve ser uma das preocupações primordiais do moralista dotado de postura científica. Pode-se fazê-lo de duas maneiras: aumentando a segurança e cultivando a coragem.”

“Para que uma vez mais possamos progredir, precisamos uma vez mais nos dominar pela esperança.”

“Tudo o que aumenta a segurança geral tende a diminuir a crueldade.”

“(…) nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Métodos como esses só farão aumentar o terror dentro do grupo dominante, receoso de que o ressentimento leve os oprimidos a rebelar-se. Somente justiça pode conferir segurança; e por “justiça” me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”

“A coragem em combate de modo algum constitui a única forma de coragem – sequer, talvez, a mais imporante. Há coragem no enfrentamento da pobreza, do escárnio e da hostilidade de nosso próprio rebanho. (…) Há, também e acima de tudo, a coragem de se pensar calma e racionalmente diante do perigo e de se reprimir o impulso do medo-pânico e do ódio-pânico. São essas coisas que certamente a educação pode ajudar a proporcionar. E o ensino de todas as formas de coragem torna-se mais fácil quando se pode contar com boa saúde, a mente sã, uma alimentação adequada e a liberdade para exercer os impulsos fundamentais.”

“Ao que tudo indica, não há limite para o que a ciência poderia fazer no sentido de aumentar a coragem – mediante, por exemplo, a experiência do perigo, uma vida atlética e uma dieta adequada.”

“A coragem estimulada nos segmentos mais pobres da comunidade não é senão uma coragem subserviente, não o tipo que envolve iniciativa e liderança. Quando as qualidades que hoje conferem liderança se tornarem universais, já não haverá líderes e seguidores, e a democracia por fim terá sido concretizada.”

“O medo não é a única fonte de maldade; a inveja e as desilusões têm também a sua cota.”

“Um homem ou uma mulher frustrados sexualmente tendem a mostrar-se repletos de inveja; geralmente isso se expressa na forma de condenação moral aos mais afortunados. Muito da força motriz contida nos movimentos revolucionários se deve à inveja aos ricos. O ciúme é, naturalmente, uma forma especial de inveja – a inveja do amor.”

“Não há, até onde sei, uma maneira pela que se possa lidar com a inveja, senão tornando mais feliz e plena a vida dos invejosos e acalentando nos jovens a ideia de empreendimentos coletivos, em lugar da competição. As piores espécies de inveja se manifestam naqueles que não têm uma vida plena no tocante ao casamento, filhos ou carreira.”

“Onde a inveja for inevitável, devemos utilizá-la como estímulo para os nossos próprios esforços, e não para frustrar os esforços de nossos rivais.”

“Não há, provavelmente, limite para o que a ciência pode fazer no sentido de aumentar a excelência positiva. A saúde pública, por exemplo, já foi bastante melhorada; apesar das lamúrias dos que idealizam o passado, vivemos mais tempo e somos acometidos de menos enfermidades do que qualquer classe social ou nação do século XVIII.”

“Quando descobrirmos de que modo o caráter depende de condições fisiológicas, seremos capazes, caso escolhamos, de produzir um número muito maior do tipo de ser humano que admiramos. Inteligência, capacidade artística, benevolência – não há dúvida que todas essas coisas poderiam ser ampliadas com a ciência.”

“O que é natural? Grosso modo, tudo aquilo com que o falante estava acostumado na infância.”

“É inútil dar aos homens algo abstratamente considerado como ‘bom’; devemos dar-lhes algo que desejem ou de que necessitem, se quisermos contribuir para sua felicidade. Com o tempo, talvez a ciência aprenda a moldar nossos desejos de modo que não contrastem com os desejos dos outros (…); estaremos aptos, pois, a satisfazer uma proporção muito maior de desejos do que atualmente.”

“Um simples desejo considerado isoladamente não é melhor nem pior que qualquer outro.”

“Poderá a ciência, caso queira, permitir que os nossos netos vivam uma vida plena, ao proporcionar-lhes conhecimento, autocontrole e atributos que produzam harmonia, em vez de discórdia. No momento, ela está ensinando nossos filhos a matarem uns aos outros (…). Mas essa fase passará quando os homens tiverem adquirido sobre suas paixões o mesmo domínio que já possuem sobre as forças do mundo exterior. Finalmente, então, teremos conquistado a nossa liberdade.”

Palavras e expressões: canhestro, práticas retóricas, deleites apaixonados, cadafalso, tiritar, tépido, esplendor, potentados, inextricavelmente, superfluidade, esmaecer, superstição, pecaminoso, infligir, ascetismo, fustigam, malevolência, júbilo, recrudescimento, emoção altruística, mistificações, aplacar, espreitam, abismos, lamúrias, dogmas antiquados.

noqueacredito

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