reading challenge #6: ecce homo – friedrich nietzsche

6. ECCE HOMOFRIEDRICH NIETZSCHE (publicado originalmente em 1888).

Categorias: ‘a book at the bottom of your to-read list’ e ‘a book you own but have never read’.

Resumo: Autobiografia de Nietzsche, mas ele discorre muito menos de si mesmo do que de suas obras e da aversão que tem do cristianismo e da Alemanha da sua época. Infelizmente, fala muito superficialmente da relação com os familiares e quase nada da infância.  Livro curto, mas denso demais. Fiquei atônita e bastante reflexiva desde que terminei ontem à noite e continuo quase 24h depois. Acho que é necessário muita coragem pra efetivamente ler Nietzsche (no sentido de internalizar e refletir).

Trechos que penso que merecem destaque:

“Sou inclusive por natureza a antítese da espécie de homem que, até o presente, foi venerada como virtuosa.”

“Quanta verdade pode um espírito suportar, quanto pode arriscar um espírito? (…) Cada conquista, cada passo em frente no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo mesmo, da limpeza para consigo.”

“O homem do conhecimento não só deve poder amar seus inimigos, mas deve poder também odiar seus amigos. (…) Vocês não se haviam ainda procurado a vocês próprios então me encontraram. Assim fazem todos os crentes; por isso vale tão pouco toda fé. Agora lhes ordeno que me percam e que se encontrem a vocês mesmos; e só quando todos me tiverem renegado é que voltarei entre vocês…” [Trechos de Assim Falou Zaratustra citados por Nietzsche no prólogo do livro].

“E como é que se reconhece, no fundo, um pleno restabelecimento? Em que um homem bem restabelecido agrada a nossos sentidos: no fato de ter sido talhado em madeira que seja ao mesmo tempo dura, tenra e odorífera. (…) Adivinha os remédios contra os prejuízos, explora a má sorte em seu proveito; aquilo que não o mata, o torna mais forte. (…) Está sempre em sua companhia, seja que frequente livros, homens ou paisagens; honra enquanto escolhe, enquanto admite, enquanto confia. (…) Examina com cuidado o estímulo que se apresenta. (…) Não acredita em “desgraça” nem em “culpa”: ele se sente bem consigo mesmo, com os outros, sabe esquecer.”

“Tenho necessidade de solidão, isto é, de convalescência, de regresso a mim, do sopro de uma brisa leve que passa livremente…”

“Ficar sentado o menos possível; não dar crédito a nenhum pensamento que não tenha surgido ao ar livre e quanto se faz livremente exercícios físicos. (…) O sedentarismo – já o disse uma vez – é o verdadeiro pecado contra o espírito santo.”

“O gênio tem por condição o ar seco, o céu puro – ou seja, um metabolismo rápido, a possibilidade de renovar sempre grandes quantidades de energia.”

“Não faz parte de meu tipo ler muitas coisas e de toda espécie: uma sala de leitura me deixa doente. Tampouco faz parte de meu gênero amar muitas coisas e de toda espécie. (…) No fundo, é a um pequeno número de velhos franceses que regresso sempre: creio só na cultura francesa e tenho por equívoco tudo quanto na Europa se chama ‘cultura’.”

“Talvez esteja eu mesmo com ciúme de Stendhal? Ele me tirou a melhor piada de ateu que eu precisamente poderia ter inventado: ‘A única desculpa de Deus é que ele não existe.’”

“Não conheço nenhuma leitura que dilacere o coração como Shakespeare: quanto tem que ter sofrido um homem para nesse ponto necessitar ser bufão! – Compreende-se realmente Hamlet? Não é a dúvida, é a certeza que enlouquece. (…) Nós, todos nós, temos medo da verdade.”

“O primeiro contato com Wagner não deixou de ser o primeiro instante da minha vida em que respirei: eu o senti, o venerei como uma terra estrangeira, como antítese, como protesto… (…) Ponderando tudo, eu não teria podido suportar minha juventude sem a música de Wagner.”

“Recusar ver, ouvir, deixar que se acerquem muitas coisas – primeira sabedoria, primeira prova de que não se é um acaso, mas uma necessidade. (…) Separar-se, desvincular-se de tudo o que obrigaria a sempre mais dizer não. (…) Nossos grandes dispêndios são os pequenos que se acumulam.”

“Outra medida da inteligência e de autodefesa consiste em reagir o mais raramente possível e a se subtrair às situações e às condições nas quais se estaria condenado a exibir por assim dizer sua própria ‘liberdade’, sua iniciativa e tornar-se um puro e simples reagente.”

“Chegar a ser o que se é supõe que não se duvide minimamente do que se é. Desse ponto de vista, até mesmo os desacertos da vida têm seu sentido e seu valor próprios, precisamente como os descaminhos e os distanciamentos episódicos do caminho, as hesitações, os pudores.”

“Cuidado com todas as grandes palavras, com todas as grandes atitudes! (…) Cuidado com todos os homens extravagantes!”

“Tudo o que até agora a humanidade considerou sério, não são nem sequer realidades, são simples fantasmas da imaginação ou, para me exprimir com mais rigor, são mentiras derivadas de maus instintos de naturezas doentias.”

“Também sofrer pela solidão é uma objeção – eu, de minha parte sempre sofri por causa da multidão…”

“No final das contas, ninguém pode escutar nas coisas, inclusive nos livros, mais do que já sabe. Não se tem ouvidos para escutar aquilo a que não se tem acesso pela experiência vivida. (…) Aquele que supõe ter entendido alguma coisa de mim tomou algo emprestado de mim à sua imagem.”

“O que importa é não ter sido nunca complacente consigo, é preciso ter dureza nas próprias atitudes para ser feliz e estar de bom humor entre verdades todas elas duras. Quando me empenho em imaginar um leitor perfeito, sempre resulta um fenômeno de coragem e de curiosidade e, além disso, algo maleável, astuto, cicunspecto, um aventureiro e um descobridor nato.”

“A Circe da humanidade, a moral, falsificou – arquimoralizou – todo o psicológico dos pés à cabeça, até chegar a esse espantoso absurdo de que o amor deveria ser algo “não-egoísta”… É preciso estar sentado firmemente em si mesmo, estar corajosamente plantado sobre duas pernas, pois, de outro modo é absolutamente impossível amar.”

“A mulher é indizivelmente mais má que o homem, e também mais inteligente; a bondade é nela uma forma de degenerescência… (…) Quanto mais a mulher for verdadeiramente mulher, tanto mais se defenderá com pés e mãos contra os direitos em geral: o estado de natureza, a eterna guerra entre os sexos, lhe confere, e de longe, o primeiro lugar.”

“A pregação da castidade é uma incitação pública à contra-natureza. Todo desprezo da vida sexual, toda a adulteração jogada sobre ela por meio da ideia do “impuro” é o próprio atentado contra a vida – é o verdadeiro pecado contra o espírito santo da vida.”

“O gênio do coração, graças a cujo contato todos ficam mais ricos, não abençoados e surpresos, não gratificados e oprimidos como que por bens estranhos, mas mais ricos de si mesmos, mais novos que antes a seus próprios olhos, abertos, penetrados e espiados pelo vento do degelo, talvez mais incerto, mais delicado, mais frágil, mais confuso, mas cheio de esperanças que ainda não têm nome algum, cheio de nova vontade e de novas correntes, cheio de novas contra-vontades e de novas contra-correntes…”

“A tragédia é precisamente a prova de que os gregos não eram de modo algum pessimistas: Schopenhauer se enganou a respeito, como se enganou em tudo.”

“Sócrates, reconhecido pela primeira vez como instrumento da dissolução grega, como típico decadente. A ‘racionalidade’ contra o instinto. A ‘racionalidade’ a qualquer preço, como força perigosa que solapa a vida!”

“Humano, demasiado Humano é o monumento de uma crise. Diz de si mesmo que é um livro para espíritos livre: quase cada frase dele exprime uma vitória – com ele me liberei de tudo o que não pertencia à minha natureza. (…) A expressão ‘espírito livre’ não poderia ter nele outro sentido: um espírito tornado livre, que voltou a tomar posse de si próprio.”

“Nunca fui tão feliz comigo mesmo como nos períodos mais doentios e mais dolorosos de minha vida.”

“Há tantas auroras que ainda não resplandeceram…”

“A questão da origem dos valores morais é, pois, para mim uma questão capital, porque condiciona o futuro da humanidade. A exigência de acreditar que no fundo tudo se encontra nas melhores mãos, que um livro, a Bíblia, fornece a segurança definitiva sobre o governo e a sabedoria divinos quanto aos destinos da humanidade, é, se for traduzido em termos de realidade, a vontade de não deixar aparecer a verdade sobre o lamentável estado de coisas contrário, a saber, que a humanidade esteve até agora nas piores mãos, que foi governada pelos fracassados, pelos astuciosos vingativos, os pretensos ‘santos’, esses caluniadores do mundo e violentadores do homem.”

“(…) tudo que é decisivo surge ‘apesar de’ algo…”

“Nas costas de cada metáfora chegas a cada verdade. Aqui se abrem bruscamente para ti todas as palavras do ser e o cofre da palavra. (…) Esta é a minha experiência da inspiração; não duvido que se tenha que recuar milênios para encontrar alguém que possa dizer ‘também é a minha’.”

“(…) foi o próprio Deus que, sob a aparência de serpente, ao final da sua tarefa, repousou sob a árvore do conhecimento: assim descansava de ser Deus…”

“Há mais cinismo na benevolência para comigo que em qualquer ódio…”

“Não sou um ser humano, sou dinamite.”

“Mas a minha verdade é terrível: pois até hoje a mentira é que foi sendo chamada verdade.”

“Eu sou o primeiro imoralista: por isso sou o destruidor por excelência.”

“A ideia de ‘Deus’ inventada para servir de antítese à vida – nela, tudo o que há de nocivo, de envenenado, de caluniador, toda a hostilidade mortal contra a vida sintetizada numa espantosa unidade. A ideia de ‘além’, de ‘verdade do mundo’, inventada para depreciar o único mundo que existe – para não deixar a nossa realidade terrestre nenhuma finalidade, nenhuma razão, nenhuma tarefa a propósito! A ideia de ‘alma’, de ‘espírito’ e finalmente de ‘imortalidade da alma’, inventada para desprezar o corpo, para torná-lo doentio – ‘santo’ – para contrapor uma leviandade horripilante a todas as coisas que merecem seriedade na vida, às questões de alimentação, de habitação, de regime intelectual, do tratamento dos doentes, da higiene, da meteorologia. Em vez de saúde, a ‘salvação da alma’ – quer dizer uma loucura circular intermediária entre as convulsões da penitência e a histeria da redenção! A ideia de ‘pecado’ inventada com o correspondente instrumento de tortura, a ideia do ‘livre-arbítrio’, a fim de desconcertar os instintos, a fim de insuflar a desconfiança contra os instintos para fazer dela uma segunda natureza! Na ideia de ‘desinteresse’, daquele ‘que renuncia a si mesmo’, encontra-se o verdadeiro sinal da decadência, a atração para o nocivo, a incapacidade de discernir o próprio interesse, a autodestruição transformada em sinal do valor, em ‘dever’, terrível – na ideia do homem bom, o favorecimento de tudo o que é fraco, doente, deficiente, sofredor de si, de tudo o que deve parecer – a lei da seleção invertida, um ideal fabricado a partir da oposição ao homem orgulhoso e bem sucedido ao homem que diz sim, ao homem seguro de um futuro, garante do futuro… E em tudo isso se acreditou, sob a denominação de ‘moral’ – Écrasez l’infâme! (expressão em francês que significa: esmaguem o infamante).”

Palavras e expressões: perquiridor, aureolado, petulância, desfaçatez, limiar,  insólita,  algoz, eruptiva, afável, “nitimur in vetitum” (lançamo-nos em direção ao proibido), híbrido, degeneresecência, filigrana, mórbido, “summa summarum” (no conjunto, em resumo), blasfêmia, cruentamente, abissal, atavismo, impertinentes, dispépticos, pusilanimidade, nefastos, “sui generis” (peculiar), mise em scène, sublime, “nosce te ipsum” (conheça-te a ti mesmo), “amor fati” (amor ao destino), estoicismo, profético, pernicioso, filisteu, indecoroso, lúgubre, incorrigíveis, mentecaptos, predestinação, reviravolta, petulância, prodígios, inverossímeis, superstição, fineza, refulge, vacilação, acariciadoras, hostilidade, resplandecer, “comme il faut” (como deve ser), etiológico, superabundância, frívolo, inaudita, eloquência, onipresença, transcendente, oniprenseça, abissal,  transvaloração, benevolência, rumorejar, ascético, eufemismo, ingente, indômita, “verum dicere” (dizer a verdade), joranis, probidade, retidão, depravação, superlativo, inelutável, “amor fati” (amor ao destino), atroz, incomensuravelmente, inaudita, degenerescência, pérfida.

Ecce Homo

reading challenge #5: mensagem – fernando pessoa

5. MENSAGEMFERNANDO PESSOA (publicado originalmente em 1934).

Categorias: ‘a book you can finish in a day’ e ‘a popular author’s first book’.

Resumo: Trata-se de uma compilação de poesias de Fernando Pessoa sobre a história de Portugal desde a fundação da cidade de Lisboa e cheio de simbolismos e aforismos. Acredito que seja bem interessante pra quem conhece a história monárquica portuguesa desde as grandes navegações.

Estrofes que mais gostei:

“A vida é breve, a alma é vasta.”

“Todo começo é involuntário.”

“As nações todas são mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós.”

“Cheio de Deus, não temo o que virá, pois, venha o que vier, nunca será maior do que a minha alma.”

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”

“Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal. (…) Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor.”

“Não sei a hora, mas sei que há a hora.”

“Mas a chama, que a vida em nós criou, se ainda há vida ainda não é finda.”

“Triste de quem é feliz! Viva porque a vida dura. Nada na alma lhe diz mais que a lição da raiz – ter por vida a sepultura.”

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