reading challenge #2: a queda – albert camus

2. A QUEDAALBERT CAMUS (publicado originalmente em 1956).

Categorias: ‘a book with a one-word title’ e ‘a book set somewhere you’ve always wanted to visit’.

Resumo: O narrador-personagem principal se chama Jean-Baptiste Clamence, foi um advogado renomado em Paris, mas, ao presenciar um suicídio numa das pontes da cidade – pelo que parece, pois ele não efetivamente viu, apenas escutou o barulho do corpo da pessoa supostamente batendo na água – fica atordoado – parece a gota d’água apenas, decide mudar de vida e vai viver em Amsterdã como ‘juiz-penitente’. O livro trata das reflexões do Jean-Baptiste sobre a vida: rotina, desejos, prazer, amor, relações humanas, justiça e morte. Albert Camus é tão genial quanto em “O Estrangeiro” e tão realista quanto também (em algumas passagens eu diria até que ele é pessimista, mas é o meu ponto de vista).

Frases que merecem destaque:

“Ser senhor do próprio estado de espírito é privilégio dos grandes animais.”

“(…) teve a mesma desconfiança, depois de passar algumas semanas refletindo. Quanto a isso, é preciso reconhecer – a sociedade arranhou-lhe um pouco a franca simplicidade de temperamento.”

“Bem sei que o gosto por finas roupas brancas não pressupõe obrigatoriamente que se tenham os pés sujos.”

“(…) estamos apenas mais ou menos em todas as coisas.”

“As profissões me interessam menos do que as seitas.”

“Quando não se tem caráter, é preciso mesmo valer-se de um método.”

“(…) este país (a Holanda) me inspira. (…) Eu o amo, porque ele é duplo. Está aqui e em outro lugar qualquer. (…) A Holanda é um sonho. (…) A Holanda não é apenas a Europa dos mercadores, mas também o mar, o mar que leva a Cipango e a essas ilhas onde os homens morrem loucos e felizes.”

“Mas, enfim, eu estava do lado certo, isso bastava para a paz de minha consciência. O sentimento do direito, a satisfação de ter razão, a alegria de nos estimarmos a nós próprios são, meu caro senhor, impulsos poderosos para nos manter de pé ou nos fazer avançar.”

“Gozava minha própria natureza e todos nós sabemos que é aí que reside a felicidade.”

“Precisava ser senhor de minhas liberalidades.”

“Um terraço natural era (…) o lugar onde eu respirava melhor, sobretudo se estivesse só.”

“Na realidade, não seria isso o Éden, meu caro senhor: a vida bem engrenada? (…) Mas imagine, eu lhe peço, um homem na força da idade, com a saúde perfeita, generosamente dotado, hábil tanto nos exercícios do corpo quanto da inteligência, nem pobre nem rico, de sono fácil, e profundamente satisfeito consigo mesmo, sem demonstrá-lo, a não ser por uma alegre sociabilidade.”

“Sentia-me à vontade em tudo, é bem verdade, mas, ao mesmo tempo, nada me satisfazia. Cada alegria fazia com que eu desejasse outra.”

“A amizade é menos simples. Sua aquisição é longa e difícil, mas, quando se obtém, já não há meios de nos livrarmos dela; temos de enfrentá-la.”

“Sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Em relação a eles, já não há obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor de nosso tempo.”

“É assim o homem, caro senhor, com duas faces: não consegue amar sem se amar.”

“A vida tornava-se menos fácil: quando o corpo está triste, o coração perde as forças.”

“Aliás, se todo mundo se sentasse à mesa e ostentasse sua verdadeira profissão, sua identidade, já nem saberíamos para que lado haveríamos de nos voltar.”

“Quando me ocupava dos outros, era por pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor que dedicava a mim mesmo.”

“Em suma, eu fraquejara em público. Devido a um conjunto de circunstâncias, é claro, mas as circunstâncias existem sempre.”

“Custa-me confessá-lo, mas trocaria dez entrevistas com Einstein por um primeiro encontro com uma bela figurante. É verdade que, no décimo encontro, eu suspirava por Einstein ou por profundas leituras.”

“Uns gritam: ‘Ame-me!’ Outros: ‘Não me ame!’ Mas certa raça, a pior e a mais infeliz: ‘Não me ame e seja fiel!’”

“De tanto recomeçar, criam-se hábitos. Logo o discurso nos surge sem pensarmos nele, segue-se o reflexo: encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem verdadeiramente desejar. Acredite-me, para certos seres, pelo menos, não possuir aquilo que não se deseja é a coisa mais difícil do mundo.”

“Nenhum homem é hipócrita em seus prazeres.”

“Não era o amor nem a generosidade que me despertavam, quando corria o risco de ser abandonado, mas apenas o desejo de ser amado e de receber o que, em meu entender, era devido.”

“O único sentimento profundo que me ocorreu experimentar nessas relações era a gratidão.”

“A vergonha, diga-me meu caro compatriota, ela não queima um pouco?”

“Para que a estátua se desnude, os belos discursos devem alçar voo.”

“O que está presente é sempre o primeiro.”

“Não se tem certeza, nunca se tem certeza. Caso contrário, haveria uma saída.”

“Os mártires, meu caro amigo, têm de escolher entre serem esquecidos, ridicularizados ou usados. Quanto a serem compreendidos, isso, nunca.”

“Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida.”

“(…) para mim, foi mais difícil e doloroso admitir que tinha inimigos entre pessoas que mal ou nem ao menos conhecia. (…) A aparência de sucesso, quando se apresenta de certa maneira, é capaz de irritar um santo.”

“Não nos perdoam nossa felicidade, nem nosso sucesso, a menos que se consinta generosamente em reparti-los. Mas, para ser feliz, é preciso não se envolver demais com os outros.”

“Eis o que nenhum homem (exceto os que não vivem, quero dizer, os sábios) consegue suportar. A única defesa está na maldade. As pessoas apressam-se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas.”

“Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade?”

“Compreendi, então, à força de remexer na memória, que a modéstia me ajudava a brilhar; a humildade, a vencer; e a virtude, a oprimir.”

“O senhor já deve ter compreendido que eu era como os meus holandeses, que estão presentes sem estar: eu estava ausente no momento em que ocupava o máximo de espaço.”

“As partidas de domingo num estádio super lotado e o teatro, que amei como uma paixão sem igual, são os únicos lugares no mundo em que me sinto inocente.”

“A propósito, conhece a Grécia? (…) Lá, é preciso ter o coração puro. (…) Lá, o ar é casto, o mar e o prazer, limpos.”

“A verdade, meu caro amigo, assusta.”

“Cada excesso diminui a vitalidade.”

”O ciúme físico é um produto da imaginação e, ao mesmo tempo, um julgamento que se faz de si mesmo. Atribuímos ao rival os sórdidos pensamentos que tivemos nas mesmas circunstâncias.”

“Crime não é tanto fazer morrer, mas não se deixar morrer!”

“Uma pessoa de meu conhecimento dividia os seres em três categorias: os que preferem não ter nada a esconder e serem obrigados a mentir; os que preferem mentir a não ter nada a esconder; e, finalmente, os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo.”

“Hoje em dia, aliás, nada possuo. Não me preocupo, assim, com minha segurança, mas comigo mesmo e com minha presença de espírito. Faço questão, também, de conservar bem fechada a porta do pequeno universo, do qual sou o rei, o papa e o juiz.”

“As grandes vocações se projetam para além do lugar de trabalho.”

“O grande empecilho a evitar não será o de sermos nós os primeiros a nos condenar?”

“Quando formos todos culpados, será a democracia.”

“O julgamento que fazemos dos outros acaba por nos atingir em plena face, deixando algumas marcas.”

“Quanto mais me acuso, mais tenho o direito de julgar os outros.”

“O essencial é poder permitir-se tudo, mesmo que seja preciso proclamar, de vez em quando, em altos brados, a própria indignidade.”

“Não mudei de vida, continuo a amar-me e a me servir dos outros. Só que a confissão de minhas culpas permite-me recomeçar de maneira mais leve.”

“Leio a tristeza da condição comum e o desespero de não poder escapar dela.”

“Quando não amamos nossa vida, quando sabemos que é preciso mudá-la, não temos escolha, não é?”

Palavras: desterros, graníticas, mitomania, saduceu, exultava, polidez, efusões, expiar, sarça, lasso, amanuense, bouquinistes (vendedores de livros, gravuras etc. típicos da beira do Sena), proxenetas, desfaçatez, irascível, cinismo, misoginia, crepitante, adelgaçam, planando.

A QUEDA

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s