Há de se cuidar da amizade e do amor

se há…

Leonardo Boff

A amizade e o amor constituem as relações maiores e mais realizadores que o ser humano, homem e mulher, pode  experimentar e desfrutar. Mesmo o místico mais ardente só consegue uma fusão com a divindade através do caminho do amor. No dizer de São João da Cruz, trata-se da experiência da “a amada(a alma) no Amado transformada”.
Há vasta literatura sobre estas duas experiências de base. Aqui restringimo-nos ao mínimo. A amizade é aquela relação que nasce de uma ignota afinidade, de uma simpatia de todo inexplicável, de uma proximidade afetuosa para com a outra pessoa. Entre os amigos e amigas se cria uma como que comunidade de destino. A amizade vive do desinteresse, da confiança e da lealdade. A amizade possui raízes tão profundas que, mesmo passados muitos anos, ao reencontrarem-se os amigos e amigas, os tempos se anulam e se reatam os laços e até  se recordam da…

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meros devaneios a me torturar (tolos, será?)

Quero ser sincera, quero ajuda. Não sei nem da onde começar, mas vamos lá.. A verdade é que eu “cresci” faz pouco tempo e – como tudo pra mim! – é tudo muito doloroso – no sentido de difícil, de eu deixar rolar… Vou tentar melhorar.. o estágio no escritório veio na hora que devia na maioria dos sentidos – nunca é em todos, mas.. nada é! – quando eu tava me desenvolvendo emocionalmente – tava com o primeiro namorado! – veio a hora do desenvolver profissional e pra vida! Cara, tá ficando terrível isso. Deixa eu tentar melhorar mais um pouco.. bom, acho que a firma – como você e só você, chama! Porque é escritório na verdade.. – veio com muitas mudanças! Aquelas que todo mundo passa mais cedo ou mais tarde.. de que você tem que contar consigo mesmo acima de tudo! Todo mundo tá vivendo sua vidinha, plantando e colhendo, ninguém vai parar – nem pode! Nem deve! –  a vida em prol da sua, eu digo, pais, namorado, amigas o que seja.. tudo isso eu me dei conta faz pouco tempo.. É tudo assustador,  e eu tenho mania de aumentar mais e mais. Na vida pessoal: minha irmã indo morar longe, me mudei – espaço físico, onde você vive e dorme é big deal pra mim, não adianta.. e é mesmo.. vide o FengShui! Mas isso é outro assunto… término do meu primeiro amor de verdade! Amor diferente do que se vê, o nosso amor.. sabe? Imaturidade pura, de ambos.. Mas isso é outro assunto também.. Na vida profissional, eu lembro o quanto eu tava maravilhada de estar ao redor de gente que compartilhava comigo das mesmas dúvidas, interesses ou, ao menos, das matérias legais apenas denotativamente ou linguajar rebuscado quando tudo que se quer é falar um brother.. e o contrário também. Mas, por outro lado, a correria, ter mil coisas pra fazer, listas e mais listas que eu num conseguia botar aquele okzinho na frente da coisa pra fazer de jeito nenhum! Chegar à casa morta, pernas doendo, marcas vermelhas nos sapatos,  deitar na cama e, simplesmente, não dormir! Até porque, você ainda tem aquele livro pra ler, ou assunto mal resolvido com alguém, ou como será que tá aquele seu seriado preferido, ou ‘caramba: hoje não falei com meu pai nenhuma hora do dia, ou será que eu fui grossa agora no jantar com mamãe? Ah.. ela sabe o quão cansada eu tô!’ E final de semana, ânsia de abraçar o mundo! Sair, beber, praia, ler, amigas, sua família que você vive – ? – mas não vê, ou pô, será que vou encontrar alguém interessante hoje?, visitar o pai lá longe, falar com o primo que nunca mais se viu, dormir! E dava? Nunca.
Ao mesmo tempo, era todo mundo na mesma correria.. sei-lá. Por que você não pode? Direito? Aprendi pra caralho! – o velho palavrão pra definir o indefinível e qualificar o inqualificável! Sorry. – em todos os sentidos, de conseguir levantar o dedo numa aula e perguntar o que fosse pra qualquer professor e o melhor, sabendo o quão pertinente sua pergunta é! Sabe? Não mais ficar vermelha de vergonha e tremer na base pra qualquer coisinha.. Isso de saber a preciosidade do tempo, de que em 24 horas você pode fazer é muita coisa! – confirmei em Las Vegas. Ao mesmo tempo, quanto processo que me torturou montar a defesa ao me colocar no lugar do cliente, receando que a parte eu precisava defender estava errada o tempo todo, coitados dos consumidores que só de terem ajuizado uma ação, certamente, passaram por poucas e boas. Hard. E, o mais importante, as pessoas! Eu me apaixonei por cada um aí dentro! – que eu convivia, óbvio.. – de saber os cacuetes! As caras-de-cú! Comida preferida, dia pior da vida e o melhor! Sabe? Aí, eu tento botar tudo na balança e… o mais difícil, tentar ver o que é melhor pra mim! Você disse tudo, no que tange ao dinheiro! Infelizmente – e bota infeliz nisso!  Não dá pra viver de amor! – e, no momento, a situação tá crítica no sentido de que, não bastasse as mudanças dentro da minha cabeça depois desses 4 meses vivendo uma vida anormal em Las Vegas, em todos os sentidos – Assunto pra outra hora também.. –  gastei todo o dinheiro que ganhei no work experience na viagem, viajando (NY, Grand Canion, Los Angeles, Hawai’i) e indo às atrações (haja Cirque du Soleil nessa tal Las Vegas)! Não me arrependo, não mesmo… agora fica chato não ter o meu próprio dinheiro. Hoje tava organizando papelada antiga, quanta conta de bar, boate e tudo  o mais eu paguei com o meu cartão, cuja fatura eu mesma paguei! Sabe? Inclusive a viagem, dá gosto de fazer e viver. Orgulho de si mesma, e que seus pais o sintam também! Você dá conta por você das suas futilidades.. Aliás, quase tudo que faço é pensando nas palavras que ouvirei deles.. – pedir um dinheiro pra ir ao cinema, tomar aquele chopp, fazer meu francês, malhar, comprar aquele livro, que seja! Sabe? Cara, a primeira sexta-feira que fui aí no escritório de novo, a dor de barriga de nervoso no catamarã, tremedeira nas pernas, Botequim do Itahi! Saudade dos pães na chapa com  manteiga no café-da-manhã! Os prédios suntuosos e lindos do centro do RJ, as baias marronzinhas que quantas vezes me fizeram pensar que eu tinha dormido no escritório de tanto tempo dentro daí, até o banheiro! Revertério! E o cafezinho quando fui tomar? Tava decidida a pedir pra voltar, botar meu vestido de estágio preto, centrar-me, e pedir pra voltar! Corpo&Alma.. Aí, sábado passado, de manhã, no ônibus indo pro CEPAD – curso pro TRF! E desde quando eu quero ser técnica do judiciário, gente? Com uma amiga que cresceu comigo – essa você se identificaria sério! Papo pra outra hora.. – ela me contando do que eu perdi por aqui na vida dela nesse tempo que estive fora, que ela trocou de estágio – afinal de contas, a essência do estágio seria experimentar, né? – e amando, aprendendo sobre música brasileira – ela faz comunicação e tá na MPB FM, by the way.. -, com vontade de acordar cedo, tomar café-da-manhã correndo e ir trabalhar, mas que, como todos, ainda não sabe o que quer, tem mil neuras e tá vivendo, correndo.. Aí, pronto! Penso eu que o Márcio ter ficado ao telefone mais de 40 minutos foi um sinal de que eu não deveria voltar, isso sim. Que deveria procurar algo relacionado ao Direito Internacional, Ambiental, Criança e Adolescente que seja, algo mais eu. Novo. E, desde que voltei, tô no lema: QUE O SONHO VIRE ROTINA! Alguém definiu outro dia isso como qualidade de vida! E é isso.. eu queria mesmo é fazer meu exercício e meu curso de língua – qualquer uma! – de manhã, almoçar a comida da dona Maria, soninho da tarde, trabalhar numa ONG, dar aula de artes, ensinar a fazer papel marché – receber e dar algo puro!, ler o que quiser, ver o filme que bem entender, estudar… Faculdade com a corda toda, bem disposta, pra poder olhar no olho do professor e sua cabeça não cair, sabe? Minhas aulas de surfe e violão.. e viajar – não o normal! Eu gosto de viver nos lugares, sentir a atmosfera, as tradições, as pessoas e os turistas, mais e mais… não canso, não adianta! Acho que terei que ser diplomata mesmo. Mas e meus filhos? Vão ficar sem referencial, isso pode gerar um trauma! Será que vou ter filhos? Viverei até lá? Por outro lado, eu cansei de viver pro amanhã, em prol dum objetivo a longo prazo, quero o agora, o hoje! Tem muita gente por aí me chamando de louca, só porque tenho vontade de vomitar em conversa casual de elevador, ou num domingo em família que nego se força a falar o que nem ta com vontade, ou quando fofocam da vida sexual alheia, cansei, não tenho paciência. Sabe? Hoje eu li o dia do meu aniversário no diário de 2005 e de 2006 e, incrível!, eu envelheci um ano só não, cara.. foram 1.000!! É foda. Que que faz? Às vezes  – será mesmo? –  queria, apenas, viver, deixar rolar.  Sem pensar, que nem John Malkovich naquele filme ou aquele livro que te falei, o lance da ignorância! É, Joana.. você cresceu.. ou o contrário, isso sim?! Bom, acho que é isso. Posso ter usado as palavras erradas trilhões de vezes, ter exagerado outras milhões, esquecido de algo – essa é fato! – mas dá pra você ter uma breve noção da demanda. Quis ser o mais sincera possível.. essencial. Ainda mais percebendo o quanto você é comigo. Agora imagina se daria pra conversarmos isso numa mesa de almoço? Nunca, mas nunca mesmo que você chegaria pra Audiência das 14:00 horas a tempo… right?

Adaptação de e-mail escrito e enviado em 16 de maio de 2007.

idéias (com acento mesmo, o texto foi escrito antes do novo acordo ortográfico) do canário.

“A loja era escura, atulhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dois cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão.

Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Tão velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava lhe estar vazia. Não estava vazia. Dentro pulava um canário.

A cor, a animação e a graça do passarinho davam àquele amontoado de destroços uma nota de vida e de mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que ali foi parar íntegro e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e acima, de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele cemitério brincava um raio de sol. Não atribuo essa imagem ao canário, senão porque falo a gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti-me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho palavras de azedume.

— Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela?

E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:

— Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de pessoa doente; vai-te curar, amigo.

— Como — interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol?

— Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou vendo que confundes.

— Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado.

— Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo.

Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as idéias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saía do bicho em trilos engraçados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e úmida. O canário, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul e infinito.

— Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito?

— Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que cousa é o mundo? 

O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.

Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro, acompanhado de uma coleção de navalhas.

— As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.

— Quero só o canário.

Paguei lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame, pintada de branco, e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do céu azul.

Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabeto a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando, saltando, trilando.

Não tendo mais família que dois criados, ordenava lhes que não me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente, ou visita de importância. Sabendo ambos das minhas ocupações científicas, acharam natural a ordem, e não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos.

Não é mister dizer que dormia pouco, acordava duas e três vezes por noite, passeava à toa, sentia me com febre. Afinal tornava ao trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observação, — ou por havê-la entendido mal, ou porque ele não a tivesse expresso claramente. A definição do mundo foi uma delas.

Três semanas depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a definição do mundo.

— O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.

Também a linguagem sofreu algumas retificações, e certas conclusões, que me tinham parecido simples, vi que eram temerárias.

Não podia ainda escrever a memória que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico e às universidades alemãs, não porque faltasse matéria, mas para acumular primeiro todas as observações e ratificá-las. Nos últimos dias, não saía de casa, não respondia a cartas, não quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era canário. De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e pôr lhe água e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo científico. Também o serviço era o mais sumário do mundo; o criado não era amador de pássaros.

Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me. O médico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem pensar, não devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canário, estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o criado; a indignação sufocou-me, caí na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho é que fugira por astuto.

— Mas não o procuraram?

Procuramos, sim, senhor; a princípio trepou ao telhado, trepei também, ele fugiu, foi para uma árvore, depois escondeu-se não sei onde. Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ninguém sabe nada.

Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com algumas horas pude sair à varanda e ao jardim. Nem sombra de canário. Indaguei, corri, anunciei, e nada. Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta: 

— Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?

Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doido; mas que me importavam cuidados de amigos? 

Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular.

— Que jardim? que repuxo?

— O mundo, meu querido.

— Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.”

Texto extraído do livro “O Alienista e outros contos” de Machado de Assis.

da maturidade.

BEFORE SUNRISE – 1995 – http://www.imdb.com/title/tt0112471/

Jesse: Do you believe in reincarnation? 

Celine: Yeah. Yeah, it’s interesting. 
Jesse: Yeah, right. Well, most people, you know, a lot of people talk about past lives and things like that, you know? And even if they don’t believe it in some specific way, you know, people have some kind of notion of an eternal soul, right? 
Celine: Yeah. 
Jesse: OK, well this was my thought: 50,000 years ago, there are not even a million people on the planet. 10,000 years ago, there’s, like, two million people on the planet. Now there’s between five and six billion people on the planet, right? Now, if we all have our own, like, individual, unique soul, right, where do they all come from? You know, are modern souls only a fraction of the original souls? ‘Cause if they are, that represents a 5,000 to 1 split of each soul in the last 50,000 years, which is, like, a blip in the Earth’s time. You know, so at best we’re like these tiny fractions of people, you know, walking… I mean, is that why we’re so scattered? You know, is that why we’re all so specialized? 
Celine: I don’t know. Wait a minute, I’m not sure… I don’t… 
Jesse: Yeah, hang on, hang on. It’s a, it’s a totally scattered thought. It… This is kind of why it makes sense.

BEFORE SUNSET – 2004 – http://www.imdb.com/title/tt0381681/

Jesse: Do you believe in, like… ghosts or spirits? 

Celine: Uhm, no. 
Jesse: No? 
Celine: No. 
Jesse: Ok, what about reincarnation? 
Celine: Not at all. 
Jesse: God? 
Celine: No. 
[Both Laugh
Celine: That sounds… that sounds terrible. No, no, no. But, at the same time I don’t wanna be one of those people that don’t believe in any kind of magic, you know? 
Jesse: So then, astrology. 
Celine: Yes, of course! 
Jesse: There we go, right! 
Celine: I mean, that makes sense, right? You’re a Scorpio, I’m a Sag, so we get along.

sobre o amor, etc.

“Dizem que o mundo está cada dia menor. É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais. Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso. Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele, porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura. Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los. Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor. Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dar um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe. Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida. Assim o amigo que volta de longe vem rico de muita coisa e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc., etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio. Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, elas se vai, e finda.”

Rubem Braga – Maio de 1948.