o antônimo da raiva.

Como você sabe (pois não me contive e te liguei fula da vida na primeira oportunidade que tive), essa semana eu senti muita raiva de você (não sei se foi exatamente raiva o que senti, ainda tô aprendendo a identificar os sentimentos ruins – minha terapeuta não gosta que eu os adjetive assim – que eventualmente eu – e toda a humanidade, daí a empombação da minha terapeuta quando digo que são ruins – senti).

Não importa, o que importa é que eu descobri que o Visconde do Rio Branco foi grão-mestre da maçonaria lendo 1889. Por que você não me contou isso antes, cara?

Logo você que me ensinou a não me importar com o julgamento alheio naquele dia no crepe-furgão na Praia dos Cavaleiros (já anoitecia e eu de roupa de praia me preocupava com o que as pessoas arrumadas pro seu rolé noturno pensariam de mim) ao dizer que ninguém tinha nada com o que eu vestia, que eu tinha é que me sentir confortável, eles não pagavam as minhas contas afinal de contas (à época quem pagava era você).

Você que, ao alugar aquelas vans dominicais pra irmos de Macaé ao Rio de Janeiro, tantas vezes me proporcionou sentir essa emoção que transborda o coração de ser flamenguista e comemorar um gol abraçando qualquer pessoa por perto de nós nas cadeiras e, quando já estávamos maiorezinhas, nas arquibancadas ‘que é pra sentir mais emoção, ôôôô’ (e mamãe horrorizada com os palavrões que eu e Carol voltávamos falando de cada ida nossa ao Maraca). Não acho mesmo que tenha sido coincidência o Hexa do Flamengo ter sido no dia do seu aniversário, não mesmo. E que delícia ter estado lá do seu lado e de toda a Nação. Vontade de abraçar o Maracanã inteiro.

Logo você que me lia meus livros de História da escola pra me ensinar sobre as Civilizações da Mesopotâmia (dizendo sempre pra eu ter em mente o que aquela região infelizmente vive hoje) e me fez essa apaixonada que sou pela matéria (hoje chorei ao visitar quarto em que Getúlio Vargas se suicidou naquele 24 de agosto fatídico no Palácio do Catete, sabia? Tá tudo lá ainda: a cama, o telefone, as mesinhas, o armário, a banheira e até o pijama com a macha de sangue e, mais abaixo, o próprio revólver que ele utilizou. Não me contive.).

Você que, ao me encontrar no banheiro em estado de choque emocional sem saber o que dizer pra vovó por ter perdido no mar aquele anel-terço querido dela feito do ouro derretido da aliança do seu avô João, me sugeriu graciosamente (apontando pra sua cabeça com seus dedinhos assim) que eu aproveitasse o ocorrido e notasse, de uma vez por todas, que a única coisa que a gente não perde e ninguém pode tirar da gente é o conhecimento.

Logo você que, com essa sua educação e gentileza sem igual, me fez, pelo exemplo (ah, o exemplo) ser o que sou hoje: alguém que não consegue passar por nenhum ser vivo sem sorrir e cumprimentar (hoje me peguei cumprimentando a estátua do José de Alencar que fica aqui perto, você acredita? Se bem que você cumprimenta as máquinas que geram os papeizinhos dos estacionamentos dos shoppings. Em inglês.).

Você que deixava os livros que estudava na maçonaria pela casa sabendo muito bem que eu pegava e lia todos, que me fez ao menos tolerar isso de mulher não pode participar dos rituais de vocês, pois ‘a energia que elas emanam pro universo é diversa da emanada pelos homens’.

Logo você que, naquela tarde ensolarada de 31 de maio de 2000, pegou a minha mão no Parque da Colina ao olhar pro corpo de vovó aparentemente oco, sem qualquer traço de vida, olhou nos meus olhos com olhos cheios de lágrimas (foi a primeira – e talvez a última até hoje, não consigo lembrar outra agora – vez que te vi chorar nesses 29 anos) e disse (não sei se afirmava ou efetivamente me questionava, lembro que fiquei em silêncio, um silêncio ensurdecedor): ‘Não é possível que seja apenas isso. Tá vendo só, Joana? Não é possível. Tem que ter algo além.’.

Você que me levou contigo praquele Centro Espírita no Visconde em mais uma tentativa de descobrirmos juntos a razão de estarmos aqui nesse mundo (não há verdade absoluta e nem resposta pra isso, lembra? Talvez você mesmo tenha me contado isso também).

E voltamos ao Visconde. Será que o bairro macaense tem esse nome em homenagem ao do Rio Branco, que foi grão-mestre da maçonaria? Não foi você quem me contou, mas agora eu sei.

E a última coisa no mundo que eu sinto de você é raiva, meu Pai. 

 

 

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One thought on “o antônimo da raiva.

  1. Pois e Joana Navega, só vc mesma fazer a mente passear no passado, presente e visualizar o futuro. E que futuro, com tanta experiência e conhecimento adquirido com a vida , vai seguindo e construindo sua própria jornada. Nossos filhos não são nossos, são os filhos da ânsia do viver. Agora vai ser do seu jeito, sua história. Beijos do Pai que te ama desde a primeira vez que te vi, em Goiás.

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